Milhões de pessoas enfrentam o impacto físico, emocional e financeiro do câncer, uma doença que ceifa mais de 26 mil vidas por dia, segundo um relatório divulgado este mês pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Com cerca de 20,6 milhões de novos casos e quase 10 milhões de mortes anualmente, o câncer continua sendo a segunda principal causa de morte no mundo, depois das doenças cardiovasculares.
Reverter essa tendência exigirá uma mudança fundamental para uma abordagem centrada nas pessoas, que responda às necessidades de saúde e às experiências vividas pelas pessoas e comunidades afetadas. Sem ações urgentes, a projeção é de que os casos anuais de câncer cheguem a quase 35 milhões até 2050, o correspondente a 66,7% de novos casos da doença.
O Relatório Global sobre o Estado do Câncer da OMS 2026 , desenvolvido em conjunto com a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), fornece uma análise abrangente do progresso em áreas-chave, como o compromisso político, a prevenção do câncer – particularmente por meio do controle do tabaco e de programas de vacinação – e o investimento em tratamento.
No entanto, o relatório também revela desigualdades persistentes e crescentes no acesso à prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos, deixando milhões de pessoas sem os serviços de que necessitam. A análise mostra que, enquanto 87% das mulheres com câncer de mama sobrevivem cinco anos após o diagnóstico em países de alta renda, apenas cerca de 42% o fazem em países de baixa renda. Menos de um terço dos países inclui atualmente o tratamento do câncer em seus planos universais de saúde.
“O câncer é uma doença profundamente pessoal que afeta quase todos nós. Mas a sobrevivência de uma pessoa ao câncer nunca deveria depender de onde ela nasceu ou de sua renda”, disse o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
“As desigualdades documentadas neste relatório não são inevitáveis; são consequência de escolhas e podem ser revertidas por meio de ações mais fortes e unificadas”, acrescenta.
A maioria das pessoas será afetada pelo câncer em algum momento da vida, seja por um diagnóstico próprio ou de um familiar próximo. Além do impacto na saúde, o câncer continua sendo um dos desafios mais devastadores que uma família pode enfrentar, tanto financeira quanto socialmente. A primeira pesquisa da OMS com pessoas afetadas pelo câncer revelou que pelo menos 45% delas enfrentam dificuldades financeiras, mais da metade relata problemas de saúde mental e quase todos os cuidadores relatam sobrecarga, incluindo serviços não remunerados e isolamento social.
Taxas de câncer em diferentes regiões
A carga do câncer varia consideravelmente entre as regiões. Em 2024, a Ásia representou a maior parcela, com mais da metade de todos os casos de câncer (50,7%) e óbitos (56,5%), refletindo sua grande população. A Europa apresentou uma carga desproporcionalmente alta, contribuindo com 21% dos casos globais e 20% dos óbitos, apesar de ter apenas cerca de 9% da população mundial. Em contraste, muitos países da África e partes da Ásia apresentam menor incidência, mas mortalidade desproporcionalmente alta.
O câncer de pulmão continua sendo a principal causa de morte por câncer em todo o mundo. Os cânceres de pulmão, próstata e colorretal estão entre os mais comuns em homens, enquanto os cânceres de mama, pulmão e colorretal representam uma parcela substancial da incidência da doença em mulheres.
Quase quatro em cada dez casos de câncer em todo o mundo estão ligados a fatores de risco evitáveis, particularmente infecções como o papilomavírus humano (HPV), hepatite B e C e helicobacter pylori, consumo de álcool e tabaco, alto índice de massa corporal e atividade física insuficiente, o que destaca o papel crucial da prevenção.
“Embora estejamos observando reduções em algumas taxas de câncer em países que implementaram políticas de prevenção, o progresso tem sido muito lento”, disse Elisabete Weiderpass, Diretora da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da OMS.
“O perfil do câncer está evoluindo, cada vez mais impulsionado pelo aumento das taxas de obesidade, inatividade física, dietas pouco saudáveis e poluição do ar. A prevenção do câncer deve continuar sendo uma prioridade política”, observa.
Apesar dos grandes avanços, as lacunas persistem
O relatório destaca avanços substanciais em áreas políticas importantes. O consumo de tabaco diminuiu 27% desde 2010, contribuindo para a redução dos casos e mortes por câncer de pulmão em algumas regiões. Os cânceres relacionados a infecções também estão diminuindo graças à expansão da cobertura vacinal e à melhoria do acesso à água, saneamento e higiene (WASH), bem como à prevenção e ao controle de infecções.
O compromisso político se fortaleceu, com 82% dos países agora possuindo planos nacionais de controle do câncer, um aumento em relação aos 50% registrados em 2010. Em países de alta renda, os programas de detecção precoce identificam a maioria dos casos de câncer de mama e 74% das mulheres foram examinadas para detecção do câncer de colo do útero. A inovação científica está se acelerando; os ensaios clínicos registrados aumentaram a uma taxa anual de 7,3% entre 2005 e 2021.
No entanto, esses avanços não se traduzem em ações que salvam vidas na velocidade necessária. Medicamentos essenciais para o câncer continuam fora do alcance de muitos: a disponibilidade dos 20 medicamentos prioritários para o câncer varia de apenas 9% a 54% em países de baixa e média-baixa renda, em comparação com 68% a 94% em países de alta renda. E as consequências dessas lacunas são sentidas com mais intensidade pelas pessoas que vivem com câncer e por suas famílias.
“O câncer não é apenas um diagnóstico médico – ele afeta profunda e indefinidamente todos os aspectos da vida de uma pessoa e de sua família”, disse Clarissa Schilstra, sobrevivente de câncer infantil e uma das líderes da pesquisa da OMS.
“Instamos os formuladores de políticas a se engajarem de forma significativa com as pessoas afetadas pelo câncer. Ao compartilharmos nossas experiências, podemos contribuir para soluções mais equitativas e eficazes que protejam e promovam a vida e o bem-estar das futuras gerações”, completa.
Rumo a uma agenda de controle do câncer centrada nas pessoas
O relatório representa uma importante oportunidade para colocar as pessoas afetadas pelo câncer no centro dos esforços de controle da doença. Ele convoca governos, organizações internacionais, sociedade civil, instituições acadêmicas, o setor privado e a OMS a trabalharem juntos para oferecer uma abordagem holística e centrada na pessoa para o cuidado de indivíduos e famílias afetados pelo câncer.
Para apoiar essa visão, o relatório descreve sete recomendações principais e três mudanças estratégicas a serem implementadas em todos os países e comunidades:
- Melhoria das capacidades : Integrar o controle do câncer na cobertura universal de saúde e investir em capital humano para prevenir e controlar o câncer;
- Melhor proteção : Colocar as pessoas com experiência vivida no centro dos sistemas de combate ao câncer, ao mesmo tempo que se fortalece a proteção social; e
- Melhor custo-benefício : alinhar a pesquisa e a inovação às necessidades de saúde pública e garantir o acesso equitativo a avanços na área da saúde baseados em valor.
As escolhas feitas e as ações tomadas hoje moldarão o impacto do câncer nas gerações futuras. Ao adotar uma abordagem centrada nas pessoas, fazer investimentos estratégicos e contínuos e manter um compromisso inabalável com a equidade, os países podem reduzir o impacto do câncer e melhorar os resultados para todos, em todos os lugares.
Fonte: OMS
Foto: Yasin Abdullahi






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