Promessa de emprego em dólar termina em pesadelo para dois sergipanos

O que parecia ser uma oportunidade de emprego com remuneração em dólar acabou se transformando em um pesadelo para dois jovens de Aracaju, de 25 e 26 anos. Eles estão entre 23 brasileiros que relatam ter sido vítimas de uma rede internacional suspeita de tráfico humano e exploração em operações criminosas realizadas pela internet.

Os brasileiros viajaram após receberem propostas de trabalho no exterior. A promessa, segundo os relatos, era de empregos regulares e salários elevados. Ao chegarem ao Camboja, porém, eles teriam descoberto que seriam submetidos a uma rotina de exploração, ameaças e atividades ligadas à aplicação de golpes virtuais.

O caso está sendo acompanhado pela Polícia Federal e pelo Ministério das Relações Exteriores. Depois de passarem pelo Camboja, os brasileiros foram levados para Madagascar, onde conseguiram escapar e buscaram auxílio de organizações especializadas no atendimento a vítimas de tráfico humano.

Um dos sergipanos, cuja identidade foi preservada por segurança, contou que decidiu aceitar a proposta porque atravessava um período de dificuldades financeiras e acreditou que o trabalho oferecido poderia mudar sua realidade.

“Eu precisava encontrar uma saída para as dificuldades que enfrentava no Brasil e achei que aquela proposta poderia ser uma oportunidade. O que me apresentaram era um emprego de segurança no Camboja, descrito como um trabalho regular, seguro e dentro da legalidade”, relatou o jovem.

A realidade encontrada pelos brasileiros, entretanto, teria sido muito diferente da promessa feita durante o recrutamento. Segundo o jovem, depois da chegada ao país asiático, o grupo teria sido obrigado a trabalhar na aplicação de golpes por meio de ligações telefônicas e outras atividades digitais.

“Assim que chegamos, percebemos que o serviço não tinha relação com aquilo que haviam prometido. Éramos submetidos a uma carga de trabalho muito pesada, ficávamos sob ameaças e éramos obrigados a fazer ligações para brasileiros com o objetivo de aplicar golpes”, acrescenta.

A situação teria se prolongado até uma operação policial no Camboja identificar o local onde o grupo estava. Em seguida, de acordo com o relato, os criminosos retiraram os brasileiros do país e os levaram para Madagascar.

Foi no território africano que o grupo conseguiu escapar do controle dos suspeitos. Após a fuga, os brasileiros passaram a receber assistência de entidades locais voltadas à proteção de pessoas vítimas de tráfico e exploração.

Grupo está em local protegido

A falta de documentos e o temor de novas represálias fizeram com que a segurança dos brasileiros se tornasse uma das principais preocupações. A ativista Cíntia Meirelles, da ONG The Exodus Road, passou a acompanhar a situação e ajudou a garantir um local protegido para o grupo.

Uma representante da organização em Madagascar foi mobilizada para oferecer abrigo aos brasileiros enquanto são buscadas alternativas para regularizar a situação documental e viabilizar o retorno ao Brasil.

“Eles estão protegidos neste momento e contam com o suporte de organizações que atuam localmente. Agora, é fundamental que o governo brasileiro fortaleça essa assistência, para que o Itamaraty participe diretamente da solução e ajude essas pessoas a retornarem ao país com segurança”, observa.

Além da proteção, os brasileiros dependem da regularização da documentação para conseguir deixar Madagascar. A expectativa é de que as autoridades brasileiras avancem nas providências necessárias para o retorno do grupo.

Famílias aguardam solução

Em Sergipe, a situação provocou apreensão entre os familiares dos dois jovens. De Aracaju, parentes acompanham os acontecimentos à distância e cobram rapidez das autoridades diante da incerteza sobre quando os brasileiros poderão voltar.

Um familiar de um dos sergipanos, que optou por não ser identificado, descreveu à TV Sergipe o momento enfrentado pela família como extremamente difícil.

“Todos estão muito preocupados porque a situação ainda não foi resolvida e existe uma grande insegurança sobre o retorno dele. A mãe está emocionalmente muito abalada e tem enfrentado dias extremamente difíceis desde que soube do que aconteceu”, lamentou.

A prioridade das famílias é conseguir a documentação necessária para que os dois jovens possam embarcar de volta ao Brasil. Entre as providências esperadas está a emissão da Autorização de Retorno ao Brasil (ARB), destinada a brasileiros no exterior que precisam retornar ao país e não possuem documentação de viagem válida.

PF e Itamaraty acompanham o caso

A Polícia Federal em Sergipe confirmou ao portal G1 que está ciente da situação envolvendo os dois aracajuanos. As informações foram encaminhadas às áreas responsáveis da instituição e ao Ministério das Relações Exteriores para os procedimentos de investigação e assistência.

O Itamaraty também confirmou que acompanha o caso por meio da Embaixada do Brasil em Maputo, capital de Moçambique, responsável pelo atendimento consular de brasileiros em Madagascar.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, a representação diplomática mantém contato com as autoridades locais e com a Interpol, além de prestar assistência consular aos brasileiros envolvidos.

O órgão informou ainda que não pode fornecer informações individualizadas sobre o caso, em razão das normas relacionadas à proteção de dados pessoais e à privacidade dos cidadãos.

Enquanto aguardam os próximos encaminhamentos, os 23 brasileiros permanecem em um local considerado seguro em Madagascar, com apoio de organizações locais. As autoridades brasileiras continuam acompanhando a situação e apurando as circunstâncias relacionadas ao recrutamento e à exploração do grupo.


Por Redação
Foto: Ilustrativa

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