O Sertão brasileiro não se explica apenas pela geografia da seca ou pela rigidez do solo rachado, para compreendê-lo, é preciso abandonar a lógica puramente cartesiana e mergulhar em um território onde a realidade e o mito caminham de mãos dadas e dividem o mesmo prato de farinha. O imaginário coletivo do homem sertanejo é um tecido muito complexo, bordado com linhas de misticismo, violência histórica, códigos morais rígidos e uma herança folclórica que desafia o tempo e muitas vezes até a própria lógica.
No Sertão, o misticismo não é uma prática de domingo, ele é um mecanismo de sobrevivência, vejamos, diante da escassez hídrica e do esquecimento do Estado, é a fé que se torna a primeira e, freqüentemente, a única linha de defesa. O sagrado ali é palpável, manifesta-se nas romarias a Juazeiro do Norte, na devoção inabalável a Padre Cícero ou aos “Santos do Povo”, figuras que, embora não canonizadas pela Igreja Católica, ganharam altares pela dor de seus martírios, é um catolicismo popular, sincrético, eivado de profetismo, onde beatos e conselheiros historicamente canalizaram o clamor de comunidades inteiras.
A Reza Braba, o amuleto no pescoço (o “Corpo Fechado”) e a promessa são as ferramentas com as quais o sertanejo molda a sua esperança sobre a terra árida. Paralelamente à extrema devoção corre na veia do homem sertanejo uma violência que moldou a história da região. O Sertão foi, por séculos, o palco do cangaço, fenômeno social complexo que misturou banditismo, revolta contra a opressão dos coronéis e messianismo. Figuras como Lampião e Maria Bonita habitam esse limbo entre o pavor e a admiração popular, nesse cenário de isolamento, a justiça institucionalizada demorava a chegar, e quando chegava, costumava servir apenas aos poderosos criou-se, então, uma espécie de tribunal próprio, o da defesa da honra.
No código de ética sertanejo tradicional, a palavra empenhada vale mais que qualquer contrato assinado em cartório, e a afronta ao nome ou à família era uma dívida que só se pagava com sangue. A faca na cintura e o revólver na mão não eram apenas armas, mas extensões de um severo pacto de respeito mútuo. “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” A célebre frase de Euclides da Cunha em Os Sertões ganha sentido pleno quando se percebe que essa “fortaleza” não é apenas física, mas psicológica, forjada no equilíbrio entre o medo do além e o enfrentamento do agora.
Se, por um lado o dia pertence ao trabalho duro sob o sol escaldante, por outro a noite sertaneja pertence às sombras e às histórias contadas ao redor do fogo no terreiro da casa. O folclore local é uma colcha de retalhos que funde tradições indígenas, mitos ibéricos e a ancestralidade africana. O Lobisomem, a Caipora (guardiã das matas), a Peste Pelada e a Perna Cabeluda ganham contornos realistas nos relatos dos mais velhos.
O medo dessas entidades regula, inclusive, a relação do homem com a natureza e as horas da noite. Pendurados em barbantes nas feiras livres, os folhetos de cordel funcionam como o Jornal, a Enciclopédia e o Cinema do Sertão. Eles imortalizam desde as Pelejas de Repentistas até a Chegada do Diabo na Feira, transformando o cotidiano em Poesia Rimada e Xilogravura. O Reisado, o Bumba meu Boi, as Fogueiras de São João e as Bandas de pífanos são expressões vivas dessa herança. Não são meras apresentações folclóricas, são ritos de comunhão que reafirmam a identidade de um povo que teima em não esquecer suas origens.
O imaginário coletivo do homem sertanejo é, em última análise, a sua maior riqueza. É o que transforma a paisagem cinzenta da caatinga em um cenário épico, digno de Homero ou de Guimarães Rosa. Misticismo, Violência e Tradição não são elementos isolados, mas engrenagens de uma mesma cultura que aprendeu a extrair beleza da crueza. Ao povoar o isolamento com Monstros, Santos, Heróis e Vilões, o sertanejo humanizou o deserto. E, ao fazer isso, garantiu que a sua voz continuasse a ecoar forte e altiva, muito além das fronteiras de seu próprio chão seco.
Era cruel, era malvado
Virgulino (o Lampião)
Mas era pra quê negar?
Nas fibras coração
O mais perfeito retrato das caatingas do Sertão….Anônimo
Valter Albano é historiador, desenvolve pesquisas sobre Música, Cultura, Mitos, Lendas, Imaginário Coletivo e Conflitos Sociais Rurais com tônica para o Cangaço, onde dedica especial interesse e domínio.
*Este é um artigo pessoal de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Hora News.






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