A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (8) retirou do comando da corporação o delegado que esteve à frente de algumas das investigações de maior repercussão dos últimos anos.
Desde que assumiu a chefia da PF, em janeiro de 2023, Andrei coordenou operações que atingiram setores do sistema financeiro, agentes públicos, políticos e integrantes de organizações criminosas. Entre os casos de maior impacto estão a investigação que resultou na prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a elucidação dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes e a apuração de um esquema de descontos não autorizados em benefícios do INSS.
O afastamento ocorre justamente enquanto a investigação sobre o Banco Master se tornou um dos principais pontos de tensão dentro do Supremo. Mendonça é o relator do caso e determinou a saída de Andrei e do diretor de Inteligência Policial da PF, Leandro Almada.
Segundo a decisão, relatórios produzidos pela área de inteligência da Polícia Federal teriam acompanhado de forma irregular a atuação do ministro e suas relações com outras autoridades. Mendonça considerou os fatos graves e determinou, além dos afastamentos, a adoção de medidas para investigar eventuais responsabilidades criminais e disciplinares.
A decisão provocou reação dentro da Polícia Federal. Integrantes da cúpula da corporação demonstraram contrariedade e classificaram o afastamento como uma medida de caráter político.
A decisão chegou a obter maioria na Segunda Turma do STF, com manifestações favoráveis dos ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. O julgamento, porém, foi interrompido após pedido de vista apresentado pelo ministro Gilmar Mendes.
Banco Master está no centro da crise
O afastamento de Andrei ganha peso especial porque ocorreu no momento em que a própria Polícia Federal investiga o Banco Master.
Durante a gestão do delegado, a corporação deflagrou a Operação Compliance Zero, que teve Daniel Vorcaro como um dos principais alvos e resultou na prisão do banqueiro. A operação também levou à apreensão de seu celular, cujo conteúdo posteriormente passou a ser analisado pelos investigadores.
As mensagens encontradas no aparelho revelaram contatos de Vorcaro com pessoas ligadas a diferentes setores do poder. Em determinado momento, segundo as investigações, o empresário teria tentado mobilizar interlocutores próximos ao diretor-geral da PF e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, com o objetivo de evitar possíveis ações contra ele. A estratégia não impediu a operação policial.
O conteúdo extraído do celular passou a desempenhar papel importante nas investigações e alimentou uma crise que alcançou o STF, a Procuradoria-Geral da República e a própria cúpula da Polícia Federal.
As apurações envolvendo o banco também alcançaram investimentos bilionários da Rioprevidência em produtos financeiros relacionados ao Master. Duas frentes de investigação passaram a analisar movimentações que somam aproximadamente R$ 3 bilhões.
Investigação de Marielle avançou sob comando de Andrei
Outro marco da gestão de Andrei Rodrigues foi a investigação dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, mortos em março de 2018, no Rio de Janeiro.
O caso permaneceu durante anos sem a identificação dos responsáveis pela ordem para a execução. A entrada da Polícia Federal na apuração produziu avanços que culminaram, em março de 2024, na prisão de Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro; do ex-deputado federal Chiquinho Brazão; e de Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio. As prisões ocorreram durante a Operação Murder Inc.
De acordo com a investigação conduzida pela PF, Domingos e Chiquinho Brazão seriam os mandantes do crime, enquanto Rivaldo Barbosa teria participado da estrutura relacionada ao assassinato. A corporação também apontou a existência de uma tentativa de dificultar o esclarecimento do caso e direcionar as investigações para pessoas que não seriam os verdadeiros responsáveis.
A resolução do crime passou a ser apresentada por Andrei como uma das principais conquistas da Polícia Federal durante sua gestão.
Fraude no INSS também marcou período
A Polícia Federal também ampliou sua atuação contra fraudes envolvendo benefícios previdenciários. Em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), a corporação revelou um esquema de cobranças associativas realizadas sem autorização de aposentados e pensionistas.
A apuração teve início em 2023 e ganhou dimensão nacional com a Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025.
Segundo os investigadores, cerca de R$ 6,3 bilhões foram descontados por associações de aposentadorias e pensões entre 2019 e 2024. O valor representa o total das cobranças investigadas, e não necessariamente a quantia integralmente considerada fraudulenta. A apuração passou a buscar identificar quais descontos foram realizados sem consentimento dos beneficiários.
A operação provocou afastamentos de servidores, apreensões de dinheiro, veículos e bens de alto valor e atingiu integrantes da estrutura administrativa responsável pela gestão dos benefícios.
PF também investigou atos contra a democracia
Durante a gestão de Andrei, a Polícia Federal esteve ainda no centro das investigações sobre a tentativa de impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva após as eleições de 2022.
A corporação investigou militares, ex-integrantes do governo de Jair Bolsonaro e outros personagens apontados como participantes ou articuladores de iniciativas destinadas a contestar o resultado eleitoral e impedir a transição de governo.
Paralelamente, operações da PF avançaram contra esquemas de lavagem de dinheiro, organizações criminosas, milícias e estruturas de corrupção e infiltração do crime organizado em instituições públicas.
O conjunto dessas investigações fez com que a gestão de Andrei Rodrigues adquirisse forte peso político e institucional.
Mudança ocorre em momento de alta tensão
Com o afastamento determinado por Mendonça, a Polícia Federal passa por uma mudança no comando justamente quando a investigação do Banco Master continua produzindo desdobramentos.
O ministro sustenta que a medida busca preservar a integridade das investigações diante de suspeitas relacionadas à produção e ao uso de relatórios de inteligência. A direção da PF, por outro lado, contesta a decisão e vê motivação política no afastamento.
O episódio acrescenta um novo elemento à crise que envolve o STF e a condução das investigações sobre o Banco Master.
Andrei deixa a direção da Polícia Federal após mais de três anos no cargo, período marcado por investigações que alcançaram figuras de grande influência nos campos político, econômico e institucional.
A saída ocorre, portanto, no momento em que a corporação enfrenta uma das mais delicadas fases de sua atual gestão: o diretor afastado comandava a instituição quando a operação contra o Banco Master foi deflagrada e quando o aparelho celular de Daniel Vorcaro foi apreendido – material que, desde então, passou a integrar o centro das disputas e investigações que agora alcançam as mais altas esferas da República.
Por Redação
Foto: Andressa Anholete/Agência Senado






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