Sergipe é uma terra de muro baixo. Aqui ninguém muda de lado sem que o vizinho veja, o radialista comente, o blog registre e o eleitor guarde no HD da memória. Pode pintar o muro de verde e amarelo, pode botar bandeira na janela, pode gravar vídeo com voz grossa e cara de quartel, mas sempre aparece alguém dizendo: “ô meu filho, eu vi você do outro lado da calçada”. É por isso que essa conversa de “bolsonarista raiz” precisa passar por exame de DNA político. Porque, em Sergipe, raiz mesmo não nasce em vaso de gabinete, não brota em palanque pronto e não aparece depois que a onda já virou tsunami.
Rodrigo Valadares foi para a televisão falar em candidatos “verdadeiramente bolsonaristas”, em oportunistas, em “sabor direita”, em gente que parece direita, cheira a direita, fala como direita, mas na hora H vira sabonete de banheiro de repartição: escorrega, cai e ninguém segura. O discurso é bonito para a tropa, inflama a militância e joga gasolina no cercadinho. Mas aí vem Sergipe, essa velha senhora fofoqueira e organizada, abre o álbum de retratos e pergunta: “Rodrigo, meu filho, você quer mesmo conversar sobre bolsonarismo raiz?”
Porque bolsonarista raiz, goste-se ou não, foi aquele que estava com Bolsonaro em 2018, quando a coisa ainda era pedrada, facada, rua, bandeira, adesivo no carro, briga em grupo de WhatsApp e parente deixando de falar com parente no almoço de domingo. Raiz é quem entrou na onda antes da prancha dourada aparecer. Rodrigo, hoje, pode ter prestígio no PL, pode ter proximidade com o clã Bolsonaro, pode fazer discurso duro, pode mirar Alexandre de Moraes, pode chamar os outros para o teste do microfone aberto. Mas a história política dele não começou ontem, nem nasceu com camisa da Seleção passada no ferro. Há registros jornalísticos lembrando que, em 2018, Rodrigo esteve em ambiente político muito diferente daquele que hoje tenta patrulhar. E memória, em Sergipe, é pior que cachorro farejador: acha o osso enterrado mesmo depois de anos.
O mesmo vale para Coronel Rocha. Hoje pode vestir a farda simbólica do bolsonarismo, bater continência para a direita e falar como se tivesse descido do Monte Sinai com as tábuas do conservadorismo na mão. Mas Sergipe sabe. Sergipe lembra. Sergipe cochicha no cafezinho. Rocha circulou no tempo do poder petista, viveu a era Marcelo Déda, conheceu os salões, os corredores, os bastidores e, politicamente falando, já comeu o caviar do PT. Não adianta agora querer vender marmita ideológica de raiz como se nunca tivesse participado do banquete. Pode até dizer que mudou, que amadureceu, que virou outra página. Tudo bem. Política permite mudança. O que não permite é amnésia seletiva com ar-condicionado ligado.

E aí entra Pitoco, o cachorro mais politizado da história recente de Sergipe. Pitoco era o basset do filho de Marcelo Déda, um cachorro de perna curta, faro comprido e destino jornalístico grandioso. Segundo a famosa nota da Veja/Radar, o bichinho fugiu do Palácio de Veraneio numa sexta-feira e voltou na quinta-fera, um pouco machucado. Até aí, drama de família. Quem tem cachorro sabe: um portão aberto, uma distração, uma cadela interessante na esquina e pronto, lá se vai o cidadão de quatro patas viver a própria revolução. O problema é que Pitoco não fugiu de uma casa comum; fugiu do Palácio. E, quando cachorro foge do Palácio, até o latido ganha protocolo.
A história ganhou o Brasil porque a imprensa noticiou que o Gabinete Militar teria aberto sindicância contra militares que estavam na segurança no momento da fuga. A versão oficial negou a sindicância, disse que houve apenas mobilização para procurar o cachorro, mas a piada já tinha saído correndo mais rápido que Pitoco. O basset virou manchete, virou risada em Brasília, virou munição política, virou lenda palaciana. Enquanto muita gente esperava solução para problema sério, o país ria da possibilidade de um aparato estatal preocupado em descobrir quem deixou o cachorrinho escapar. Pitoco, coitado, talvez só quisesse namorar fora dos muros do poder. Mas acabou revelando mais sobre a política sergipana do que muito discurso de tribuna.
Por isso a ironia fica do tamanho do Palácio: alguns personagens que hoje querem distribuir certificado de pureza bolsonarista já circularam, com crachá, café e ar-condicionado, pelo velho palácio do PT, no tempo em que Marcelo Déda era governador e Pitoco, o cachorro fujão, virou quase secretário extraordinário de Segurança Canina. Coronel Rocha viveu aquele ambiente, respirou aquele poder, viu os corredores onde o petismo servia caviar simbólico em bandeja de prata e onde até um basset de perna curta conseguiu produzir crise maior que muita oposição de palanque. Agora, aparecer como fiscal da alfândega ideológica, carimbando quem é direita raiz e quem é direita Nutella, é brincadeira pronta para o sergipano rir sem pedir licença. É como se o sujeito tivesse almoçado no Palácio, passado guardanapo de linho no canto da boca, elogiado o tempero do governo e, anos depois, surgisse na feira dizendo que nasceu comendo carne de sol conservadora, farinha patriota e vinagrete anticomunista. Aí Sergipe olha, coça a cabeça e pergunta: “meu amigo, você pensa que Pitoco fugiu levando a memória do povo na coleira?” Porque em terra de muro baixo, até cachorro salsichinha sabe quem já abanou o rabo no quintal do PT.
A eleição para o Senado em Sergipe não será decidida por quem grita mais “raiz” no microfone. O eleitor sergipano pode até ser paciente, mas não é besta. Ele sabe diferenciar convicção de conveniência, trajetória de encenação, coragem de marketing e fidelidade de fantasia. André Moura, André Davi, Rodrigo Valadares, Rogério Carvalho, Eduardo Amorim, Alessandro Vieira, Edvaldo Nogueira, Professor Iran e tantos outros nomes estarão no tabuleiro. Cada um com sua história, seu grupo, seu peso, seus defeitos e suas alianças. O sergipano vai escolher olhando identidade, serviço prestado, confiança, força política e lembrança. Porque aqui ninguém vota só porque alguém bateu no peito e gritou “sou raiz”. Aqui o povo pergunta: raiz de onde, plantada quando e regada por quem?
No fim das contas, Pitoco continua sendo uma metáfora perfeita para Sergipe. Ele fugiu do Palácio, voltou para casa e deixou um rastro que até hoje serve para farejar incoerência política. Rodrigo pode chamar os outros de “sabor direita”. Rocha pode se apresentar como bolsonarista de coturno e certidão antiga. Mas a pergunta permanece latindo no portão: quem é realmente bolsonarista raiz e quem apenas descobriu Bolsonaro depois que o prato já estava servido? Em terra de muro baixo, até cachorro pequeno enxerga longe. E Pitoco, se pudesse falar, talvez dissesse com aquela sabedoria de quem já viu palácio por dentro e rua por fora: “meu povo, cuidado com quem late de um lado, mas já abanou o rabo no outro”.
Fausto Leite é advogado com atuação nas áreas de Direitos Humanos e Direito Público, é professor universitário, mestre em Direitos Humanos, mestre em Ciência Política e doutorando em Direito pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora, na Argentina.





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