Nem bolsonaristas nem petistas: os “invisíveis” decidirão as eleições 2026

Desde 2018, o debate político brasileiro tem sido visto como uma batalha de torcidas entre duas forças: o lulismo e o bolsonarismo. Essa visão binária, amplificada pelas redes sociais e pelos embates cotidianos, alimentou a ideia de que o país está dividido ao meio, entre “vermelhos” e “verde-amarelos”. Mas um estudo recente da ONG More in Common em parceria com o instituto de pesquisas Quaest e coordenado pelo professor de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo, Pablo Ortellado, mostra que essa narrativa é bem mais limitada do que parece.

De acordo com a pesquisa, 54% dos brasileiros não se identificam nem como petistas nem como bolsonaristas. São pessoas que não participam de manifestações, não discutem política nas redes e, muitas vezes, nem se sentem representadas pelos partidos existentes. Esse grupo, apelidado pelos responsáveis pela pesquisa de os “invisíveis”, representa a maioria da população — e poderá definir o resultado das eleições presidenciais de 2026.

Um país: seis grupos ideológicos

O levantamento, realizado com mais de 10 mil entrevistados de todas as regiões do país, entre 22 de janeiro e 12 de fevereiro com margem de erro de um ponto percentual, identificou o eleitorado brasileiro em seis segmentos ideológicos. Nas pontas, estão os Progressistas Militantes (5%) e os Patriotas Indignados (6%) — os mais ativos e ruidosos nas redes. A eles se somam dois grupos de apoio: a Esquerda Tradicional (14%) e os Conservadores Tradicionais (21%). Juntos, esses quatro blocos somam 46% da população. O restante são os 54% que formam o centro silencioso e se dividem entre dois perfis: Desengajados e Cautelosos, cada um com 27% dos brasileiros. O primeiro grupo é mais progressista nas pautas sociais; o segundo, mais conservador nos costumes. Ambos, porém, compartilham um mesmo sentimento: cansaço da polarização e descrença na política tradicional.

O perfil dos “invisíveis”

Os Desengajados são, em geral, brasileiros de baixa renda, menos escolarizados (apenas 6% têm nível superior) e mais afetados pela insegurança econômica. Segundo o estudo, 65% têm renda inferior a R$ 5 mil, 13% se declaram pretos e 12% já enfrentaram a fome. Apesar de valorizarem políticas sociais, como o aumento do salário mínimo e a isenção do Imposto de Renda para rendas menores, 72% se definem como conservadores em valores. O distanciamento da política é marcante: 30% votaram branco, nulo ou não compareceram às urnas em 2022, 65% não simpatizam com nenhum partido, e 46% não se definem nem como petistas, nem como bolsonaristas. Para eles, a política é vista como um campo distante, dominado por elites que não falam sua língua.

Já os Cautelosos, embora também enfrentem dificuldades econômicas (55% com renda menor que R$ 5 mil), se mostram ligeiramente mais engajados e mais homogêneos em sua visão moral. 81% se consideram conservadores, e quase metade (45%) se identifica com o PT, ao mesmo tempo em que 40% se declaram de direita — uma contradição que ilustra bem a complexidade desse grupo. A presença de nordestinos (31%) e moradores de áreas rurais (17%) é significativa, e há um forte apego à religiosidade e à desconfiança das elites intelectuais.

Conservadorismo moral, pragmatismo social

Um dos achados mais reveladores da pesquisa é que, embora os “invisíveis” tenham valores conservadores, eles apoiam políticas de proteção social. A maioria concorda com programas de transferência de renda e defende a presença do Estado em áreas como saúde, educação e combate à pobreza. Por outro lado, os “invisíveis” expressam visões tradicionais sobre temas de costumes. Entre os Desengajados, 70% rejeitam o uso de banheiros femininos por travestis, e 54% consideram que cotas raciais são uma forma de racismo. Entre os Cautelosos, esses índices sobem para 89% e 67%, respectivamente. Essa combinação de conservadorismo moral com sensibilidade social será um desafio tanto aos candidatos da esquerda quanto de direita na formulação de discursos que conversem com os Desengajados e com os Cautelosos.

O esgotamento da polarização

O estudo mostra ainda que há um anseio generalizado por união e moderação. Entre os Desengajados, 92% desejam que “os partidos trabalhem juntos para resolver os problemas do país”; entre os Cautelosos, esse índice chega a 96%. Em outras palavras, o Brasil está cansado da polarização política e quer resultados concretos. A cientista política Lilian Sendretti, do Cebrap, Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, que produz estudos marcados pela multidisciplinaridade, rigor científico e impacto no debate público, observa que o excesso de confrontos desde 2018 levou à “politização da vida cotidiana”, o que esgotou emocionalmente o eleitor comum. Segundo ela, em 2026, as discussões sobre políticas sociais e econômicas tendem a voltar ao centro do debate, enquanto as “guerras culturais”, com temas como moralidade, gênero e costumes, podem perder força, ainda que continuem atraentes para candidatos conservadores.

O desafio para os candidatos

O grande desafio das campanhas de 2026, portanto, será dialogar com essa maioria silenciosa que não se reconhece nos extremos. Estratégias baseadas em engajamento digital e polarização podem mobilizar as minorias mais barulhentas, mas não garantem vitória. Os invisíveis não vivem nas bolhas de redes como o X (antigo Twitter) ou Instagram. Eles vivem na rotina das cidades médias e pequenas, do transporte público, das filas de postos de saúde e dos boletos a pagar. Eles não querem discursos inflamados, querem respostas práticas: emprego, segurança, alimentação, educação e estabilidade. E, sobretudo, querem respeito, algo que parece ter desaparecido do debate político. Os “invisíveis” carregam frustração, esperança e um desejo profundo por normalidade. Eles acreditam que o país pode ser governado com menos gritos e mais diálogo.

Tudo indica que, em 2026, enquanto as redes estiverem fervendo e os extremos trocando ofensas, será essa maioria discreta, moderada, desconfiada e pragmática que, de fato, decidirá o futuro do Brasil.


Murilo Lima é especialista em gestão de empresas com formações em Gestão da Criatividade e Inovação, Desenvolvimento de Dirigentes, Desenvolvimento Estratégico, Psicologia Analítica e Filosofia. Diretor Comercial da Jovem Pan Aracaju, empresa do Grupo Lomes de Comunicação, também atua como Mentor e Analista Comportamental, é membro da Ordem Budista Cittadhatu e articulista colaborador do Hora News.






*Este é um artigo pessoal de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Hora News.

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