No Dia da Consciência Negra, Iyá Sônia Oliveira destaca a força da culinária afro-brasileira em Aracaju

A culinária afro-brasileira é, antes de tudo, um ato de conexão com a ancestralidade e com uma história marcada pela resistência diante da violência racial. É nesse sentido, somado à afetividade e às memórias familiares, que a Iyá Sônia Oliveira mantém o Yeyê Bistrô, projeto que integra o Descubra Aracaju, iniciativa fruto da parceria entre a Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal de Turismo (Setur), e a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Sergipe (Fecomércio-SE). Todos os domingos, o bistrô ocupa a Praça Tobias Barreto.

Aos 50 anos, Sônia é baiana de nascimento, mas sempre manteve forte ligação com Sergipe, terra natal de sua família. Mudou-se para Aracaju aos 17 anos para estudar e aqui permaneceu. Ela relembra que, ao chegar, o que mais a marcou foi o aspecto cultural. Ao longo dos anos, Sônia consolidou sua atuação na cidade, especialmente no enfrentamento ao racismo. Em 2024, recebeu o título de Cidadã Aracajuana, concedido pela Câmara Municipal de Aracaju (CMA). Além de empreendedora e ialorixá, é mestre em Políticas Públicas, professora da rede municipal e docente na área de gastronomia. Em 2025, foi vencedora do PowerList Mundo Negro na categoria Destaque Gastronômico.

Nesse ponto, ela ressalta o quanto o setor gastronômico da capital evoluiu com o passar dos anos. “Nós temos bons restaurantes, bons lugares para comer, muita comida de rua de qualidade. O atendimento gastronômico aqui na cidade é muito interessante”, avaliou.

A relação de Sônia com a cozinha vem da infância. Rodeada por familiares que se dedicavam à culinária, cresceu entre receitas e celebrações. “Minha avó materna trabalhava com acarajé; a paterna era banqueteira, produzia bolos e salgados. Minha madrinha era confeiteira, e meu pai sempre ajudou a família na cozinha. Esse universo sempre me acompanhou”, contou.

Entre suas memórias mais afetivas está a tradição dos almoços na Semana Santa. “Na Sexta-feira da Paixão, na Páscoa, ou no aniversário do meu avô, a família se reunia e minha avó preparava o que havia de melhor: moqueca de bacalhau com mamão verde, caruru, fritada, casquinha de siri. Essa é a minha memória mais afetiva”, relembrou.

A culinária também atravessa sua trajetória espiritual. Para Sônia, no candomblé tudo passa pela “cozinha santa”. “Quem chega ao candomblé aprende naturalmente a cozinhar. Há um momento em que a pessoa assume essa responsabilidade. A comida está presente em tudo: nas rezas, nas celebrações, nas obrigações. As nossas divindades comem”, explicou.

Ela reforça que, para mulheres negras, a cozinha também é um espaço de resistência. “A cozinha sempre foi um lugar de desvalorização para nós. Hoje, vemos chefs de renome conquistando seu capital por meio da gastronomia”, destacou. Além disso, Sônia defende que a comida é instrumento de letramento antirracista, capaz de manter viva a cultura afro-brasileira.

“Pensar a gastronomia a partir dos saberes ancestrais é um ato político. Não é apenas ensinar uma receita, mas apresentar um prato e, por meio dele, educar sobre sua origem. Muitas pessoas consomem comidas de santo o ano inteiro sem saber. O letramento racial está nesse processo”, explicou.

Foi unindo memória familiar, fé e conhecimento gastronômico que nasceu o Yeyê Bistrô. O início ocorreu durante o Natal Iluminado, quando o grupo ocupou um espaço do evento. Depois, incentivada por um dos filhos de seu terreiro, Sônia decidiu transformar a experiência em negócio.

“Viemos um dia, depois outro, e começaram a surgir encomendas. Após o Natal Iluminado, organizamos tudo e criamos o nome. A partir daí, nós nos estabelecemos aqui na praça e passamos a receber muitas demandas para eventos corporativos, confraternizações e festas de fim de ano”, relatou.

Hoje, vendendo seus pratos todos os domingos, Sônia celebra ver a Praça Tobias Barreto revitalizada. “Essa feira é memória afetiva para mim. Eu vinha para Aracaju quando criança e moramos nessa região. Aqui era o nosso entretenimento de domingo. Ver a praça viva novamente é fantástico”, elogiou.

Um dos responsáveis por esse movimento é o Descubra Aracaju, que fortalece o empreendedorismo e o turismo local ao levar música e lazer aos espaços públicos. Para Sônia, o projeto incentiva a cidade a reconhecer seus talentos.

“Nem todos os aracajuanos conhecem Aracaju. O projeto permite que pessoas do artesanato, da gastronomia e das artes apareçam, muitas vezes pela primeira vez. É importante que essa força venha do poder público, para que as pessoas criem suas marcas e o público conheça esses trabalhos”, ressaltou.

Sobre o futuro do bistrô, Sônia quer ampliar sua equipe. “É um bistrô de rua, e eu gostaria que continuasse assim. Podemos ou não ter um ponto fixo, mas sempre na rua. Hoje já contamos com três jovens trabalhando conosco e quero trazer mais pessoas”, disse. Para ela, é preciso incentivar também a juventude aracajuana que deseja empreender. “Para começar, é necessário coragem, e nada mais”, finalizou.




Por Assessoria de Imprensa
Foto: Pritty-Reis/PMA

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