Quatro décadas depois, o legado de amor, fé e caridade de Mãe Nanã continua iluminando gerações.
Há 44 anos, Sergipe se despedia de Mãe Nanã, a Rainha do Candomblé. Mas sua presença permanece viva — nas histórias contadas ao pé do barracão, nas lembranças dos filhos e filhas de santo, na memória de um povo que encontrou nela não só a líder espiritual, mas uma mãe, conselheira e símbolo de resistência.
Em um país marcado por contrastes culturais e espirituais, a intolerância religiosa no Brasil, especialmente contra as religiões de matriz africana, tem raízes profundas. Durante o século XX, práticas como o Candomblé e a Umbanda foram severamente perseguidas. A polícia invadia terreiros, apreendia instrumentos sagrados, fichava e humilhava publicamente os Ialorixás e babalorixás (mães e pais de santo). O Código Penal de 1890, ainda vigente durante boa parte desse período, classificava os rituais afro-brasileiros como “curandeirismo” ou “charlatanismo”, legitimando juridicamente a repressão. A mídia os estigmatizava, e a sociedade, influenciada por um cristianismo hegemônico, marginalizava seus praticantes.
Em Sergipe, essa realidade não foi diferente. Comunidades inteiras foram silenciadas ou empurradas para a clandestinidade. Os terreiros funcionavam com medo, camuflavam seus ritos como festas folclóricas ou missas rezadas para escapar da repressão. O preconceito, disfarçado de zelo moral ou religioso, atingia em cheio aqueles que buscavam apenas manter vivas suas tradições e espiritualidades ancestrais. Foi nesse cenário, repleto de desafios e resistências, que se destacou a figura de uma mulher singular: Erundina Nobre dos Santos, conhecida como Mãe Nanã.
Nascida entre os anos de 1888 e 1891 no povoado São Roque Mendes, município de Riachuelo, em Sergipe, Erundina comemorava seu aniversário no dia 10 de maio. A incerteza sobre a data exata de nascimento se deve à falta de registros oficiais precisos, comuns na época, o que explica a discrepância entre sua idade real e a idade oficial registrada como 100 anos.
Aos 12 anos de idade, mudou-se com os pais e muitos irmãos para a capital sergipana, Aracaju. De formação católica, casou-se aos 22 anos com um integrante da Igreja Presbiteriana, no bairro Siqueira Campos. Mas sua trajetória tomaria outro rumo quando, naquele período, recebeu a entidade “Pai João”, que se manifestou como seu ancestral da nação nagô. Pai João afirmou que ela deveria sair daquela religião e ser iniciada no candomblé. A experiência, que envolveu fé e ruptura, resultou no término do seu primeiro casamento e no início de uma jornada espiritual que marcaria sua vida e a história do candomblé em Sergipe.
Conduzida por guias espirituais e apoiadores, Erundina foi levada à Bahia, passando por Salvador e Cachoeira, onde viveu seu processo de iniciação no Candomblé. De volta a Aracaju, recebeu a missão de abrir um terreiro e dar continuidade ao culto dos orixás. Em 1940, foi investida como Ialorixá por Zeca do Pará, uma importante liderança religiosa baiana, recebendo então o nome de Mãe Nanã de Manadeuí. Com as perseguições constantes aos cultos afro-brasileiros, Mãe Nanã teve que mudar seu terreiro diversas vezes. Passou por diferentes bairros da cidade até se estabelecer por um período no 18 do Forte.
Em 1954, fixou residência definitiva no bairro América, onde ergueu o ilê que ficaria conhecido como o Abaçá de São Jorge (abaçá, também chamado de terreiro, é o espaço sagrado onde se realizam os cultos do Candomblé). Sua fisionomia branca, aliada ao bom relacionamento com lideranças políticas da época e ao trabalho assistencial que realizava, contribuiu para que, a partir dos anos 1950, sua casa de axé (termo usado para designar o terreiro, local onde se praticam os rituais e cultos religiosos) fosse poupada das perseguições sofridas por tantos outros.
Foi no Abaçá de São Jorge que Mãe Nanã iniciou uma multidão de filhos e filhas de santo (filhos de santo são os praticantes iniciados que possuem uma ligação especial com um orixá específico), oriundos não apenas do bairro América, mas também do interior sergipano e de vários estados do país. O número de iniciados só crescia. Uma de suas filhas de santo, Mãe Monodê, fundou um dos primeiros abaçás de Candomblé em São Paulo. Mãe Nanã casou-se mais três vezes após o primeiro matrimônio, ficando viúva em todas as uniões, com convivências curtas, de menos de cinco anos.
Apesar de ser uma referência do Candomblé, Mãe Nanã sempre manteve uma boa relação com a Igreja Católica. Era respeitada pelos frades capuchinhos, que visitavam sua casa com frequência. Em contrapartida, frequentava missas na Igreja de São Judas Tadeu, no bairro América, e gostava de se confessar com Frei Miguel.
A fama de caridosa com os pobres e desamparados era bem conhecida. O Abaçá São Jorge funcionava como um verdadeiro albergue. Mãe Nanã criou ao menos 13 crianças órfãs ou abandonadas, oferecendo-lhes não apenas moradia, mas também educação e orientação para a vida adulta. Nos fundos do terreiro, cedia pequenas casas a pessoas sem condições de pagar aluguel. Viajantes que vinham do interior para realizar tratamentos de saúde em Aracaju e não tinham onde ficar também encontravam abrigo sob seu teto.
Com o passar do tempo, o Abaçá se transformou em um espaço de convivência comunitária. Quando não havia rituais religiosos, o barracão se abria para festas populares, com muita comida, bebida e música. Era um espaço sem preconceito — ali conviviam pessoas de diferentes religiões, classes sociais, orientações sexuais e etnias.
Amante do futebol, Mãe Nanã foi uma das poucas pessoas do bairro América que possuía uma televisão durante a Copa do Mundo de 1970. As portas do Abaçá foram abertas para toda a comunidade assistir aos jogos do Brasil. A cada gol, a vibração era coletiva, e, na final contra a Itália, o espaço ficou lotado. Quando o Brasil se consagrou tricampeão, o carnaval começou ali mesmo. Tamanha era sua paixão pelo esporte que fundou um time local, o América Futebol Clube, que passou a ser conhecido como o América de Nanã.

Sua boa relação com políticos da época fazia dela uma voz ativa na defesa das necessidades do povo do bairro América. Era ouvida e respeitada, e suas reivindicações traziam melhorias reais para a comunidade. Com o tempo, Mãe Nanã se tornou uma lenda viva. Prestigiada, reconhecida, respeitada dentro e fora do estado, consolidou-se como a maior referência do candomblé em Sergipe, com notoriedade nacional e até internacional.
Mãe Nanã deixou a vida carnal no dia 25 de junho de 1981, vítima de parada cardíaca, oficialmente aos 100 anos de idade. Há quem diga que, por ter sido registrada somente por volta dos 13 anos, sua idade real ultrapassava um século. Seu velório foi marcado por uma multidão de milhares de pessoas: filhos e filhas de santo, Ialorixás e babalorixás de outros Abaçás, admiradores, políticos, amigos e moradores de diversas comunidades do estado. Os ogãs tocaram seus instrumentos durante todo o cortejo fúnebre, que saiu do bairro América até o Cemitério Santa Isabel, no bairro Santo Antônio. Foi um momento de dor, mas também de reverência e gratidão.
Partiu deixando órfão não só o povo do bairro América, mas também toda uma legião de filhos e filhas de santo, comunidades tradicionais, estudiosos da cultura afro-brasileira e incontáveis pessoas que encontraram em Mãe Nanã um abrigo espiritual, um conselho sábio, um prato de comida ou simplesmente um gesto de acolhimento quando mais precisavam.
Seu legado ultrapassou as fronteiras do Abaçá. Tocou vidas, restaurou dignidades, formou lideranças, curou feridas — físicas, espirituais e sociais. Não era apenas a Ialorixá de um povo. Era a avó de muitos, a conselheira de outros tantos, a amiga dos humildes e, sobretudo, uma referência viva de dignidade e resistência em tempos em que a fé negra era perseguida e invisibilizada.
Mãe Nanã foi exemplo de fé e caridade. Sua generosidade, sua firmeza e sua dedicação aos mais necessitados são lembradas até hoje por todos aqueles que viveram sob sua proteção ou ouviram suas histórias. Seu nome continua ecoando nos cantos, nas memórias, nos corações de quem viu nela muito mais que uma sacerdotisa: viu uma mãe, uma conselheira, uma líder, um símbolo de resistência e amor. E assim partiu Mãe Nanã, como o pôr do sol que não se apaga, apenas se recolhe atrás da linha do tempo. Levou consigo o segredo das águas paradas, dos ventos que anunciam cura, das rezas que atravessam madrugadas. Mas deixou na terra um perfume de dendê e flor, de tambor e afeto, de resistência e ternura.
Dizem que, nas noites de silêncio profundo, ainda se ouve um canto vindo do bairro América — um canto que embala, que aconselha, que cura. É Mãe Nanã, eterna, em cada vela acesa, em cada gesto de compaixão, em cada abraço sem julgamento.
Porque certas presenças não partem. Apenas mudam de roupa e voltam com outro nome, outro corpo, outro tempo. Mas o amor… ah, o amor de Mãe Nanã nunca deixou de bater forte no coração de quem acredita que a fé pode ser colo, que o axé pode ser casa. E que uma mãe de santo, de verdade, é daquelas que nem a morte consegue silenciar.
Que sua história nos ensine algo essencial: não existe religião melhor ou pior. O melhor ou pior não está no credo, nos ritos ou nas vestes sagradas, mas dentro de cada um de nós — nas escolhas, nas palavras, nos gestos de compaixão ou intolerância, nas atitudes que constroem ou destroem. É pelas ações que revelamos quem realmente somos. Porque, no fim das contas, o que nos define não é o altar diante do qual nos ajoelhamos, mas a forma como estendemos a mão a quem precisa.
Emanuel Rocha é historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe e Bairro América: A saga de uma comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.
*Este é um artigo pessoal de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Hora News.






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