Brasil prefere punir inocentes a correr o risco da impunidade, revela pesquisa

O Brasil atravessa um momento de forte polarização moral quando o tema é justiça criminal. Entre o desejo por punições exemplares e a preservação de princípios éticos fundamentais, como a presunção da inocência, uma ampla parcela da população tende a priorizar o castigo, ainda que isso implique a possibilidade de erro judicial. Essa é uma das principais conclusões de um levantamento nacional encomendado pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e realizado pela Ágora Consultores, com quase 10 mil entrevistados de diferentes perfis sociais em todo o país.

Realizada entre os dias 17 e 23 de novembro de 2025, a pesquisa apresentou aos participantes um dilema moral: dez pessoas são acusadas de crimes graves, sendo certo que apenas uma é inocente – sem que se saiba qual. Diante desse cenário, 42% dos brasileiros afirmaram que preferem punir todo o grupo para garantir que os culpados não fiquem impunes. Em sentido oposto, apenas 15% defenderam que ninguém deveria ser condenado, em respeito ao princípio jurídico de que é melhor absolver do que cometer uma injustiça contra um inocente.

A análise das respostas revela que o medo da impunidade ocupa um lugar central no imaginário social. Para muitos entrevistados, a punição funciona como instrumento indispensável de ordem e exemplo, mesmo quando reconhecem a possibilidade de erro. Frases como “é melhor errar punindo do que deixar criminosos livres” e “sem castigo não existe justiça” aparecem de forma recorrente, evidenciando a naturalização do sacrifício individual em nome de um suposto bem coletivo.

Outro dado relevante é a inversão do ônus da prova na percepção popular. Parte significativa dos respondentes entende que cabe ao inocente provar sua inocência, chegando inclusive a relativizar essa condição ao associá-lo ao contexto do crime. Nesse raciocínio, estar “no meio dos culpados” já seria indício suficiente de responsabilidade, o que dilui a noção de erro do sistema e transfere a culpa para o indivíduo.

Quando o dilema avança para um desfecho extremo – a aplicação da pena de morte ao grupo – o apoio ao punitivismo sofre retração. Apenas 17% concordariam com a execução coletiva, mesmo índice registrado quando os entrevistados são confrontados com a hipótese de que um dos condenados seja seu próprio filho ou filha. A maioria absoluta (51%) rejeita a pena capital como forma de evitar um erro irreversível.

Curiosamente, a defesa mais enfática da vida aparece entre os entrevistados que não professam fé religiosa. Entre os que se declaram ateus, 62% recusam qualquer execução para impedir a condenação de um inocente. O percentual é menor entre católicos (52%), evangélicos (60%), espíritas (41%) e seguidores de outras religiões (59%).

Nesse grupo, prevalece a ideia de que nenhuma circunstância justifica punir quem não cometeu um crime. As respostas também apontam para críticas ao funcionamento do sistema de justiça e à fragilidade das investigações, indicando que o problema não está na ausência de punição, mas na incapacidade do Estado de julgar com precisão.

Para esses entrevistados, a solução passa pelo aperfeiçoamento institucional, e não pela adoção de castigos coletivos. O desafio seria fortalecer a justiça sem abrir mão de seus próprios fundamentos éticos.

Juventude, crime e respostas punitivas

O levantamento também investigou como os brasileiros avaliam crimes cometidos por jovens, como roubos de celulares. Para 32% dos entrevistados, essas ações devem ser tratadas como crimes graves, passíveis de repressão violenta e até letal. Outros 53% reconhecem que se trata de um problema social, mas defendem punições rigorosas. Somados, esses dois grupos representam 85% dos respondentes favoráveis a respostas severas contra jovens infratores.

Apenas 12% acreditam que políticas sociais e estruturais são o caminho mais eficaz para reduzir esse tipo de crime. Para esse grupo minoritário, a criminalidade juvenil é consequência direta de desigualdade, racismo estrutural e ausência do Estado – fatores que não seriam resolvidos com o endurecimento penal.

Mesmo entre aqueles que admitem o peso das condições sociais, prevalece a visão de que elas explicam, mas não justificam o crime. Nessa perspectiva, a pobreza deixa de ser vista como atenuante e passa a ser tratada como “desculpa”, reforçando discursos que rejeitam abordagens mais humanizadas.

A pesquisa também mediu a adesão a frases emblemáticas do debate público sobre segurança. A expressão “bandido bom é bandido morto” encontra concordância em 31% dos entrevistados. Outros 38% afirmam que “bandido bom é bandido preso”, enquanto 28% defendem que a resposta mais eficaz está na atuação do Estado para garantir direitos e promover a ressocialização.

Para o cientista político Diego Villanueva, diretor da Ágora Consultores, os resultados indicam menos radicalização do que se poderia supor.

“Há um desgaste com discursos considerados permissivos, mas isso não significa apoio irrestrito à violência. Existe uma racionalidade em disputa”, avaliou. Segundo ele, quando somados, os que defendem prisão ou políticas de ressocialização representam 66% da amostra.

Mais uma vez, a religião surge como fator de diferenciação, mas de forma inesperada. Os ateus lideram o apoio à ideia de ressocialização (52%) e registram a menor concordância com a defesa da morte como solução penal (30%). Entre católicos, evangélicos, espíritas e seguidores de outras crenças, a adesão à frase “bandido bom é bandido morto” varia entre 24% e 38%.

Metodologia

A pesquisa ouviu pessoas com 16 anos ou mais em todo o território nacional, por meio do painel on-line da Ágora Consultores. A amostra foi estratificada por unidade da federação, com cotas proporcionais à população, além de recortes por sexo, idade e área geográfica.

Ao todo, foram realizadas 9.497 entrevistas, com nível de confiança de 95% e margem de erro de 1 ponto percentual. Os dados passaram por processos de ponderação, calibração e controle de qualidade para garantir consistência e representatividade.


Por Redação
Foto: SSP

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