Celebrar os 171 anos de Aracaju é também revisitar os processos históricos que moldaram sua identidade. A cidade nasceu de uma decisão política e se desenvolveu a partir de um gesto de planejamento: a transferência da capital e o desenho concebido pelo engenheiro Sebastião Basílio Pirro estabeleceram as bases de um projeto urbano que buscava orientar o crescimento da nova cidade.
Hoje, mais de um século e meio depois, Aracaju revisita esse mesmo rigor ao discutir a revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), se reencontrando com sua própria história para projetar um futuro mais humano e sustentável. O plano, que está há mais de duas décadas sem atualização, volta ao centro do debate na atual gestão com a proposta de orientar a cidade sem apagar as marcas históricas que formam sua identidade.
O gesto representa a responsabilidade da Prefeitura de Aracaju com o crescimento econômico alinhado à preservação histórica e à qualidade de vida, além da manutenção da vocação da cidade de ser pensada para as pessoas e preparada para as próximas gerações.
Uma cidade projetada
Segundo o historiador Amâncio Cardoso, mestre em História Social, pesquisador e autor de estudos sobre a história de Sergipe e patrimônio cultural, a origem de Aracaju está diretamente ligada à dinâmica econômica do século XIX. A antiga capital da província, São Cristóvão, já não atendia às necessidades administrativas e comerciais da época. A distância da Barra do Rio Cotinguiba, por onde escoava cerca de 75% da produção açucareira, dificultava a fiscalização e a arrecadação de tributos.
Coube então ao presidente da província, Inácio Barbosa, enxergar o potencial estratégico do povoado Santo Antônio do Aracaju. O local era uma pequena comunidade formada por sitiantes, lavradores, pescadores, oleiros e salineiros, que possuía uma capela dedicada a Santo Antônio, documentada desde 1778.
“Ele estava situado na Barra do rio Cotinguiba (atual Sergipe), onde se instalou a Alfândega, para arrecadar tributos imperiais; e a Mesa de Renda, para arrecadar os tributos provinciais, facilitando a fiscalização para evitar a sonegação fiscal na principal Barra da Província. A capital não se instalou do lado da Barra dos Coqueiros por conta da falta de fontes de água potável e pela direção dos ventos que traziam os miasmas epidêmicos do lado do nascente para o poente”, explica o historiador.
A decisão política foi consolidada em 17 de março de 1855, no alto da atual Colina do bairro Santo Antônio, onde ocorreu a reunião da Assembleia Provincial que oficializou o nascimento da nova capital. Foi justamente desse ponto elevado, que já abrigava a capela e o pequeno povoado, que se projetou a cidade que viria a se tornar Aracaju.
“Porque ali, do alto da colina e olhando para o futuro local da capital, se reuniu a Assembleia dos Deputados Provinciais, convocada por Inácio Barbosa, com o apoio do Barão de Maruim, para discutirem em algumas sessões, nos meses de fevereiro e março o projeto de mudança da capital, sendo o projeto proposto por Inácio Barbosa, discutido e aprovado pelos deputados, e sancionado pelo próprio presidente Inácio no dia 17 de março de 1855”, destaca Amâncio.
A materialização desse projeto ficou a cargo de Sebastião Basílio Pirro. Foi ele quem desenhou o croqui que daria forma à nova cidade: o chamado “tabuleiro de xadrez”, conhecido historicamente como Quadrado de Pirro. O traçado inicial compreendia o quadrilátero entre a avenida Barão de Maruim, os Mercados Municipais de Aracaju, a rua da Frente (avenida Ivo do Prado) e a avenida Pedro Calazans, marcando o nascimento de uma capital organizada.
Para Amâncio Cardoso, embora o urbanismo moderno seja um conceito posterior, esse primeiro quadrilátero permanece como símbolo da concepção projetada da cidade. “É melhor dizer que Aracaju foi uma cidade projetada, que é um plano simples, um croqui do engenheiro Pirro a pedido de Inácio Barbosa, com certa urgência. Planejar uma cidade requer mais tempo e conteúdos urbanísticos que, na ocasião, não foram empregados. O engenheiro Pirro foi célere e objetivo quando desenhou o seu ‘tabuleiro de xadrez’”, completa.
A cidade vista da colina
Mais de 170 anos depois, a Colina do Santo Antônio continua sendo um lugar de memória e também de vida cotidiana. Do alto do bairro, onde Aracaju começou a ser pensada, moradores ainda observam a cidade crescer ao redor.
Maria do Carmo Santana, proprietária de uma sorveteria na região, acompanha essa transformação há anos. “Eu tenho esse comércio há 15 anos. Vim morar sem imaginar que vinha turista aqui. Esse imóvel sempre foi da minha família, e segundo conta a minha vizinha, o poeta Garcia Rosa morou nessa casa. Aqui é um sossego e, por ser um ponto alto muito, é ventilado, muito bom. A vizinhança é maravilhosa, e além de tudo pertinho da igreja de Santo Antônio”, afirma.
A presença de moradores que vivenciaram o desenvolvimento da região reforça a sensação de pertencimento ao lugar onde a cidade nasceu. Natural de Cedro de São João, Antonio Joaquim Filho, de 94 anos, vive no bairro há mais de seis décadas. “Quando eu me deito e quando eu me levanto, sempre olho tudo. Não tem morada melhor em Aracaju do que aqui no Santo Antônio. Todo mundo se conhece, todo mundo se cumprimenta”, diz ele.
O sentimento também é compartilhado pelas novas gerações. Neto de Antonio, Ricardo Souza de Sá, de 30 anos, cresceu no bairro e destaca a atmosfera singular da região. “É uma tranquilidade que você não vê em lugar nenhum em Aracaju. Se eu puder definir o que é morar na Colina do Santo Antônio, é um privilégio. Morar aqui nesse ponto é um privilégio, porque você não tem a experiência disso daqui em lugar nenhum de Aracaju”, defende.
Para quem trabalha na área, o valor simbólico do lugar também se mistura à localização estratégica. O comerciante Aislan de Santana, de 45 anos, vê no bairro uma síntese da cidade. “Aqui eu fui agraciado, eu acho que eu ganhei na loteria nesse melhor ponto da cidade, onde a cidade começou, não tem sensação melhor. Aqui você está próximo do Centro, próximo de supermercados, de hospitais, e tem uma visão diferenciada, em que você vê praticamente uma parte da cidade, sem falar que é um lugar muito tranquilo, apesar de ser uma vizinhança antiga”, argumenta.
Entre memória e futuro
Se a colina representa o ponto de origem, o crescimento urbano que se espalhou a partir dela exige hoje novas camadas de planejamento. A coordenadora técnica da revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Aracaju, Mara Vieira, explica que a capital vive um momento decisivo para reorganizar seu desenvolvimento.
“Aracaju é uma cidade diferente das demais. Ela não nasceu de uma forma espontânea, como em torno de uma igreja ou de um forte, como a maioria das cidades coloniais. Ela foi planejada antes de ser ocupada”, aponta.
Mara Vieira explica que, se no século XIX o foco estava no traçado urbano e na definição de ruas e quadras, o planejamento contemporâneo amplia essa visão para incluir aspectos sociais, ambientais e de qualidade de vida.
“A revisão do plano é para que a cidade seja feita para as pessoas, e não só em busca de um traçado técnico. Há possibilidade de que ela tenha um crescimento mais sustentável, justo, igualitário, para que todos possam utilizar a cidade com melhor mobilidade, melhores condições de acesso aos equipamentos públicos como escolas, hospitais, praças, e delimitação das áreas para preservação e crescimento”, completa.
De acordo com a coordenadora, o lapso temporal entre as atualizações do plano impactou o crescimento urbano ordenado. “O Estatuto das Cidades tem como lei essa atualização a cada 10 anos, justamente para que não fique desordenado. Então, a gente nota que a cidade está precisando urgente de um novo ordenamento, de uma direção, para que a gente preserve as áreas mais sensíveis e também identifique onde a gente pode crescer”, afirma.
Outro ponto central do novo plano é a preservação da memória urbana. A proposta inclui diretrizes para proteger edificações históricas e orientar o uso adequado desses espaços, de modo que continuem integrados à vida da cidade. Mara ressalta que o Plano Diretor também tem papel educativo, ao orientar a população sobre como utilizar e preservar esses patrimônios.
A participação popular, inclusive, é considerada o eixo central do processo. A coordenadora destaca que mapas e dados técnicos não substituem a percepção de quem vive diariamente a cidade.
“Nem todos os dados técnicos conseguem nos mostrar como a cidade está. Quem vive é quem sente, quem diz como está a cidade, o que é que pensa, quais são seus anseios para o futuro e sugestões. É justamente o diagnóstico das pessoas que a gente precisa para poder montar diretrizes urbanísticas, para que haja um crescimento mais saudável da cidade e que atenda a população nos seus desafios do dia a dia”, diz.
Assim, entre a memória preservada na Colina e a discussão urgente sobre planejamento urbano, Aracaju se reencontra com a sua história. O mesmo gesto que, em 1855, projetou uma nova capital a partir de um ponto elevado da cidade, agora se renova no esforço coletivo de planejar seus próximos passos.
Por Agência AAN
Foto: Ronald Almeida






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