Alimentação errada pode comprometer a gravidez e o rendimento escolar das crianças, adverte nutricionista

Um dos temas mais debatidos em congressos de Nutrição é a alimentação infantil, um assunto muito discutido não apenas por especialistas da área, mas também entre os pais preocupados com a correta alimentação dos filhos.

A ingestão precoce de doces, por exemplo, é um ponto que requer atenção dos pais, pois ela pode desencadear um paladar voltado para alimentos doces, o que pode trazer complicações para o rendimento escolar das crianças.

Estudos da Organização Mundial da Saúde revelam que cerca de 80% dos casos de obesidade infantil estão relacionados à alimentação errada. Por isso, a nutricionista Rebecca Silveira Pontes, especialista em Nutrição Materno Infantil, alerta os pais quanto aos perigos de uma alimentação irregular para as crianças e reforça medidas de combate à obesidade, a começar pela correta introdução alimentar.

“A introdução alimentar é um momento de muita expectativa para os pais. É preciso que eles se acalmem neste momento. Até o primeiro ano de vida o principal alimento é o leite materno. Então a introdução alimentar é um momento em que os pais precisam ter paciência, porque o leite materno vai suprir as necessidades até os seis meses de vida. Além disso, eles precisam procurar um nutricionista especializado em Nutrição Infantil para saber quais são os métodos que existem – que são vários os métodos de introdução alimentar -, qual o que mais se adequa a realidade daquela criança”, explica a nutricionista, salientando que a má alimentação vem contribuindo com o aumento da obesidade e até mesmo do câncer. Ela cita o açúcar como um dos alimentos que devem ser evitados, principalmente nos dois primeiros anos de vida da criança.

“As doenças estão aumentando, com grande quantidade de pessoas com câncer, obesidade, enfim, e tudo isso pode ser prevenido desde antes mesmo da gestação. A alimentação antes mesmo da gestação influencia para o resto da vida da pessoa, com a probabilidade dela ter uma obesidade, uma diabetes no futuro. Há estudos que tratam dos 1100 dias, que é um período crucial na vida da pessoa, principalmente no momento da tentante, da gestação e nos primeiros dois anos de vida da criança. Durante esse tempo não se deve dar açúcar para a criança. O suco não deveria se ofertar, mas se oferecer que seja em pequenas quantidades, no máximo 120 ml por dia de um a três anos de idade e que antes de um ano deve ser evitado. O ideal é sempre dar preferência as frutas e não o suco, mesmo sendo natural. Porque quando se dar o suco tende a aumentar a glicemia da criança, por isso o ideal é que substitua o suco pela própria fruta”, observa a especialista em Nutrição Infantil.

Frutas são alimentos mais recomendados para as crianças (Foto: Arquivo Pessoal)

Rebecca Pontes observa ainda a importância da alimentação saudável para a mulher que deseja engravidar. Segundo ela, uma nutrição inadequada pode comprometer a gravidez.  

“Se ela não estiver com a nutrição adequada isso pode implicar nela não conseguir engravidar. A questão da vitamina D precisa ser adequada, porque a maioria das mulheres tem deficiência de vitamina D, que é essencial em todo este processo”, esclarece, advertindo alguns alimentos que as grávidas devem evitar para não comprometer a saúde do bebê.

“A mãe deve tirar a maioria dos produtos industrializados, ultra processados, que são os embutidos, alguns alimentos como biscoito recheado, macarrão instantâneo, entre outros, e dar preferência aos alimentos naturais, principalmente os que se compra na feira, a exemplo da macaxeira, inhame, ovo, carne, frango, que são proteínas importantes para a nossa saúde, além dos legumes, frutas e verduras. Procurar ter uma alimentação mais natural possível, fazer as refeições completas, as que tenham todos os grupos alimentares, que são os carboidratos, as proteínas e as gorduras”, aconselha Dra. Rebecca Pontes.

Outro fator preocupante para a nutricionista é o vício do cigarro e o consumo de bebidas alcoólicas. Essa combinação representa um perigo para a saúde da mãe, mas principalmente da criança, que poderá ter o sistema neurológico comprometido.

“Tem um estudo que revela que de 10% a 40% das mães gestantes bebem bebida alcoólica durante a gestação, e isso não é bom, porque pode acarretar na criança comprometimentos neurológicos. Por isso a mulher, principalmente a que quer engravidar ou mesmo a gestante deve evitar fumar e ingerir álcool. Isso deve ser feito em qualquer fase da vida de todos nós e não somente da mulher, mas as que querem engravidar ou as gestantes devem se precaver mais ainda pelo bem da saúde dela e do próprio bebê”, adverte.

A falta de informação correta e do apoio familiar no período da amamentação são uma das consequências do alto índice de depressão pós-parto. Além do suporte da família à gestante, a procura por um profissional habilitado é indispensável para o correto desenvolvimento da criança.

Desenho de um prato com encaixe para os alimentos (Foto: Arquivo Pessoal)

“Na maioria das vezes as mães não conseguem amamentar por falta de informação, de rede de apoio, dos familiares estarem apoiando a mãe neste período, porque é um momento muito frágil que a mãe senti na vida. O índice de depressão pós-parto é bastante recorrente durante este período na vida da mãe, nesses primeiros meses de vida da criança, então é muito importante essa questão da rede de apoio. Importante ela procurar um profissional capacitado que avalie a pega da criança para ver se está correta, que analise para ver se ela está com algum problema mamário, algum problema de regurgitamento, com mama inflamada, para poder tratar e não desistir da amamentação, porque o melhor alimento para a criança é o leite materno e ele deve ser incentivado até os dois anos ou mais na vida da criança”, destaca Rebecca Pontes, mestranda em Ciências da Saúde na Universidade Federal de Sergipe.

Outro recorrente que preocupa as mães é a produção do leite materno. Enquanto algumas mães afirmam não conseguir produzir o precioso alimento infantil, Rebecca diz que o problema pode está relacionado à pega mamária ou com a própria alimentação da mãe e que a não produção de leite materno é apenas um mito.  

“Essa questão da produção está diretamente ligada com a pega, com a alimentação da mãe também. Tudo isso precisa ser avaliado por um profissional capacitado. Essa questão de leite fraco, de não está produzindo é mito, isso não existe. A questão é que existem vários tipos de leites sendo produzido no início da mamada e no final da mamada. Então, precisa ser analisada para ver se a mãe está ofertando o peito até o final, até a mama secar para ver se está conseguindo fornecer todos os nutrientes para a criança. Tudo isso tem que ser avaliado por um profissional”, frisa a especialista em Nutrição Escolar e também professora de Educação Nutricional.

Um dos incentivadores da obesidade infantil é o tipo de alimentação oferecida em cantinas de escolas, principalmente particulares. O planejamento alimentar da criança é a melhor alternativa para os filhos fugirem de uma alimentação errada que pode comprometer no rendimento escolar da criança.

Mãe preparando a lancheira do filho (Foto: Mãe Coruja)

“Sempre converso com os pais e explico que é importante a gente se planejar. Não custa nada o pai no dia anterior preparar a lancheira do filho, colocar uma fruta, já que hoje em dia a gente tem muitas opções melhores até de industrializados que os pais podem está utilizando no caso de dias corridos. Se alimentar mal não deveria ser uma justificativa por causa da cantina, a gente tem muitas opções no mercado. É questão de prioridade, os pais precisam priorizar a questão da alimentação dos filhos, porque inclusive a alimentação dos filhos pode refletir na questão do rendimento escolar, a depender se o filho consome muito açúcar pode deixar a criança mais agitada na escola, fazendo com que ela não preste atenção nas aulas. Os pais precisam ter essa consciência de que a alimentação é importante e deve ser levada a sério”, diz a nutricionista, advertindo que os brasileiros se alimentam mal, mesmo sabendo dos riscos que a ausência de uma alimentação saudável pode ocasionar na vida adulta.

“O brasileiro se alimenta mal, porém tem os norte-americanos que se alimentam pior, mas hoje em dia a gente sabe que infelizmente o consumo dos produtos ultraprocessados, os embutidos desses alimentos que possuem muita gordura trans, muito açúcar estão sendo muito consumidos indiscriminadamente e ai refletem totalmente na vida dos adultos, que vão ser mais obesos, com mais doenças cardiovasculares, enfim, com mais propensão a doenças”, conclui.



Por Paulo Sousa

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