O relator da CPI do Crime Organizado no Senado, Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou que documentos obtidos pela comissão indicam movimentações financeiras envolvendo pessoas ligadas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo o parlamentar, dados obtidos por meio de quebras de sigilo bancário relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, apontariam transferências destinadas a contas de familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
A declaração foi dada ao SBT News, durante entrevista ao programa Sala de Imprensa. Vieira é também o autor de um requerimento que propõe a criação de uma nova comissão parlamentar, conhecida como “CPI Toga Master”, destinada a investigar possíveis vínculos entre integrantes do Judiciário e executivos associados ao banqueiro.
“A gente tem informação que aponta circulação de recursos entre esse grupo criminoso e familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Não é razoável dizer agora que essa circulação de recursos é ilícita. Moralmente falando, é absolutamente reprovável. Juridicamente falando, a gente vai ter que ter mais passos para constatar”, disse o senador.
Até o fechamento desta matéria os ministros citados pelo senador não se manifestaram sobre as declarações do relator da CPI.
Relações comerciais citadas nas investigações
Em manifestações recentes, Dias Toffoli confirmou participação na empresa Maridt Participações, sociedade mantida com familiares e que realizou operações com o fundo Arleen, administrado pela Reag Investimentos – instituição mencionada nas investigações envolvendo o Banco Master. Em nota divulgada anteriormente, o ministro negou qualquer participação nas irregularidades investigadas.
No caso de Alexandre de Moraes, o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci, reconheceu ter sido contratado para atuar em processos relacionados ao Banco Master. A banca informou, contudo, que o trabalho jurídico não teve qualquer relação com o STF. Sobre o contrato, estimado em R$ 128 milhões, o escritório afirmou que cerca de 15 advogados participaram da condução das demandas.
Ao comentar essas contratações, Vieira levantou questionamentos sobre a natureza dos serviços prestados.
“Quando o Master contrata o escritório de advocacia da esposa do Alexandre de Moraes, está contratando um serviço jurídico? Esse escritório prestou serviço correspondente aos valores recebidos? Até o momento, o indicativo é de que não”, declarou, mencionando também informações envolvendo o ministro Toffoli.
“Sobre Toffoli, nós temos notícias conhecidas de que ele é sócio oculto de um fundo patrimonial e tem cotas no resort”, observou.
Informações financeiras sob sigilo
Os dados mencionados pelo parlamentar estão protegidos por sigilo no âmbito da comissão. De acordo com o relator, os documentos incluem relatórios de inteligência financeira elaborados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Esses relatórios, conhecidos como RIFs, registram movimentações consideradas atípicas pelo sistema de monitoramento financeiro.
Vieira ressaltou que os relatórios não correspondem a extratos bancários completos e servem apenas como indicativos iniciais de possíveis irregularidades.
“Da Reag (gestora de investimentos) tem 200 laudas, do Banco Master tem 80 páginas. São muitas informações de ações e transferências de recursos totalmente atípicas ou suspeitas”, afirmou.
O senador também avaliou que determinadas práticas podem se aproximar de crimes de corrupção.
“Quando um grupo de interesse paga uma viagem para um tomador de decisão está muito próximo da configuração da corrupção ativa”, declarou.
Para ele, o Judiciário deveria adotar mecanismos mais rigorosos de controle interno.
“O Supremo Tribunal Federal precisa de uma faxina e um código de ética”, disse, acrescentando que “se fossem ministros de outros tribunais já teriam sido afastados”.
Vieira acrescentou que investigações envolvendo autoridades de alto escalão são incomuns, mas necessárias para preservar a confiança institucional.
“Em todos poderes, nós já tivemos apurações e punições quando os fatos são comprovados. O que é inédito é fazer apuração no tocante a ministro do Supremo. Mas aquela toga preta não é uma toga de impunidade. Aquela toga preta simboliza na verdade, a justiça. E justiça, na sua essência, ela tem que ser acreditada pela população”, salientou.
Reação do escritório de advocacia
Após as declarações, o escritório Barci de Moraes anunciou que ingressará na Justiça contra o senador. A banca, da qual é sócia Viviane Barci, informou que pretende apresentar uma ação por suposta calúnia e difamação, além de solicitar indenização por danos morais, segundo o portal Metrópoles.
A iniciativa se baseia em declarações de Vieira sobre possível “circulação de recursos” entre grupos investigados e familiares de ministros do STF.
Na ocasião, o senador afirmou: “A gente tem informações que apontam circulação de recursos entre esse grupo criminoso e familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Não é razoável dizer agora que essa circulação de recurso é ilícita”, pontuou.
O parlamentar também mencionou, na entrevista, que “apurações em andamento” indicariam pagamentos do Primeiro Comando da Capital (PCC) a agentes públicos e pessoas ligadas a diferentes esferas de poder.
Procurado posteriormente pelo portal Metrópoles, Vieira rebateu a interpretação do escritório. Ele afirmou que suas declarações foram distorcidas.
“Essa interpretação forçada não corresponde ao que falei e é mais uma tentativa de intimidação. O que fiz foi relatar o processo provável de lavagem de dinheiro realizado por um grupo que contratou os serviços do escritório da família Moraes. Não apontei, em nenhum momento, ligação direta entre o PCC e o referido escritório”, disse.
O senador acrescentou que o foco de suas declarações estava nas investigações relacionadas ao grupo empresarial ligado ao Banco Master.
“O grupo criminoso a que me refiro é o grupo Master. Algumas pessoas, aparentemente, ainda têm dificuldade em compreender que as atividades do Master eram criminosas”, afirmou.
Contexto das investigações
O escritório de advocacia entrou no centro do debate político após vir a público que prestou serviços ao Banco Master, instituição que foi posteriormente liquidada pelo Banco Central do Brasil. O proprietário do banco, Daniel Vorcaro, foi preso preventivamente e é investigado por suspeitas de fraude financeira.
A CPI do Crime Organizado foi instalada em novembro de 2025 no Senado com o objetivo de investigar a atuação de facções criminosas no país, incluindo esquemas financeiros associados a essas organizações. Como a apuração direta sobre ministros do STF não faz parte do escopo original da comissão, 38 senadores assinaram um requerimento para criar uma nova CPI específica para tratar do tema.
O avanço das investigações tem ampliado o clima de tensão entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, além de alimentar discussões políticas sobre eventuais processos de responsabilização de ministros da Suprema Corte.
Por Redação
Foto: Pedro França/Agência Senado



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