Com um objeto inusitado em mãos – um cotonete gigante – servidores do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJ-SE) passaram a ocupar fóruns e espaços públicos para chamar atenção do Judiciário e da sociedade. O símbolo resume a principal cobrança da nova campanha da categoria: que a Justiça “limpe os ouvidos” e passe a escutar quem sustenta o seu funcionamento diário e a população que dela depende.
A mobilização tem como foco abrir negociações com a Presidência do TJ-SE. O objetivo é discutir a redução de privilégios, a valorização dos servidores concursados e a correção de distorções internas que, segundo o sindicato da categoria, aprofundam desigualdades dentro do órgão.
Sob o lema “Mais justiça. Menos ganância.”, a campanha dá continuidade a ações recentes do Sindijus que denunciaram o que os servidores chamam de invisibilidade funcional e de uma estrutura voltada à autoproteção de benefícios. A avaliação da entidade é que não há como falar em Justiça efetiva enquanto persistirem disparidades salariais e vantagens concentradas em poucos cargos.
Para o sindicato, ouvir a sociedade e os trabalhadores é condição básica para a legitimidade do Judiciário. Por isso, a campanha cobra da atual gestão do TJ-SE uma postura mais coerente com o discurso institucional: revisão de privilégios, respeito aos direitos trabalhistas e diálogo com a categoria.
Gastos elevados e reação nacional
Embora a campanha seja recente, as queixas não são novas. Em 2025, os servidores do TJ-SE protagonizaram um amplo debate público sobre as despesas do tribunal, considerado pela entidade o mais abrangente já realizado no país nesse tema. Os valores recebidos por magistrados em Sergipe, frequentemente acima do teto constitucional, repercutiram na imprensa nacional e provocaram questionamentos em diferentes estados.

A pressão levou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a instituir o chamado “teto duplex”, medida que buscou limitar os adicionais aos subsídios. Ainda assim, de acordo com o Sindijus, a administração do TJ manteve e ampliou benefícios, como auxílios diferenciados, gratificações retroativas e adicionais por tempo de serviço.
Um dos episódios mais criticados ocorreu em sessão do Tribunal Pleno que aprovou, de forma administrativa e em poucos segundos, o pagamento retroativo de gratificação por acúmulo de acervo a desembargadores, referente a um período anterior à existência de previsão legal no estado. A decisão teria contribuído para que contracheques ultrapassassem, em alguns casos, a marca de R$ 100 mil.
Enquanto isso, afirmam os servidores, a base do Judiciário enfrenta perdas salariais acumuladas, carreiras fragmentadas e auxílios defasados, o que coloca os cargos efetivos do TJ entre os menos valorizados do país.
Reivindicações atualizadas
Após plenárias realizadas em outubro com todas as carreiras – agentes, técnicos, analistas, oficiais de justiça e escrivães – a categoria atualizou sua pauta de reivindicações em assembleia geral. O cumprimento dos reajustes previstos em lei segue como ponto central, mas o sindicato afirma que a agenda agora é mais ampla.
Entre as prioridades estão a equiparação do auxílio-saúde entre servidores e magistrados e a reestruturação salarial por meio da extensão de gratificações de atividade a todos os servidores que não ocupam cargos de confiança. A pauta também inclui melhorias nas condições de trabalho, ampliação do quadro funcional, criação de novos direitos e respeito às relações sindicais.
Para o Sindijus, a disputa orçamentária dentro do Judiciário reflete uma divisão de classes: a concentração de recursos em benefícios da magistratura impacta diretamente a renda e as condições de trabalho dos servidores. É por isso, afirma a entidade, que o debate ultrapassa os muros do tribunal e vai para as ruas.
A mensagem final da campanha é direta: sem diálogo, sem correção de desigualdades e sem ouvir o povo, não há Justiça plena. A categoria promete manter a mobilização até que suas reivindicações sejam efetivamente consideradas.
Por Redação
Foto: Divulgação






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