Durante décadas, o ronco do motor foi sinônimo de potência. Hoje, o futuro chega em silêncio – e, ao contrário do que alguns acreditam, ele chega muito mais seguro. Enquanto manchetes sensacionalistas inflamam medos sobre incêndios em veículos elétricos, os fatos esfriam o alarde: segundo a Associação Brasileira de Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores (ABRAVEI ), os elétricos são até 60 vezes menos propensos a incendiar do que os carros a combustão.
Por que o mito do fogo ainda pega? Porque dá audiência. Entre 1º e 10 de julho de 2024, uma pesquisa da ABRAVEI identificou 52 notícias sobre incêndios em carros a combustão, inclusive em veículos estacionados. Mas sobre os elétricos? Pouco se fala que, de 2010 até junho de 2024, em um universo de mais de 40 milhões de veículos elétricos e híbridos plug-in (BEVs e PHEVs), houve apenas 511 incidentes relacionados a baterias, ou 0,00127% de todos os casos.
E a tendência é de queda vertiginosa: em 2023, esse índice despencou 91,3%, atingindo 0,00011%. Ou seja, a cada 1 milhão de veículos elétricos em circulação, apenas um teve registro de incêndio.
Risco menor que o de um avião
A frota de 29 mil aeronaves comerciais no planeta registrou 46 acidentes com 224 vítimas em 2023 – o que equivale a 0,16 acidentes por aeronave. Entre os 40 milhões de elétricos, no mesmo ano, foram 43 incêndios. Traduzindo: os carros elétricos são 160 mil vezes menos propensos a incidentes do que aviões em operação.
Outro fantasma comum é o da tomada. Mas um estudo da Research Institutes of Sweden (RISE) revelou que não há relação entre o ato de recarregar e o risco de incêndio. Até 2020, apenas 21,3% dos incidentes ocorreram durante o carregamento, e um quarto deles foi causado por falhas na instalação elétrica. Em 2024, o percentual caiu para 15%, resultado direto da evolução tecnológica e das normas de segurança.
No Brasil, os dados são ainda mais tranquilizadores: não há registro de incêndios causados por baterias de alta tensão em veículos elétricos. Com mais de 200 mil unidades rodando pelo país, houve apenas um caso isolado em Anápolis (GO), em 2024, decorrente de uma colisão, e não de falha elétrica.
Elétrico x combustão
Ainda, segundo pesquisa da RISE, estudos mostram que a intensidade das chamas em um incêndio de carro elétrico e de um carro a combustão é semelhante. A diferença está no comportamento: nos elétricos, a chamada fuga térmica (superaquecimento das células da bateria) é mais difícil de iniciar; já nos veículos a combustão, o risco é o “incêndio em poça” – quando o combustível derramado cria uma chama intensa que se espalha rapidamente.
Já um estudo da LASH FIRE confirma: o pico de energia liberada em um incêndio de carro a combustão é muito maior e ocorre em até três minutos, enquanto o elétrico leva mais tempo e dissipa menos calor.
A DEKRA, referência global em segurança automotiva, mostra que as baterias dos veículos elétricos são verdadeiros escudos tecnológicos: são instaladas na parte inferior do veículo; protegidas contra deformações e colisões, além de serem cercadas em materiais isolantes e sistemas de monitoramento térmico.
Os estudos mostram que em muitos incêndios provocados por causas externas, as baterias permanecem intactas. Portanto, o risco de ignição espontânea é tão baixo que já se tornou estatisticamente insignificante.
Para o especialista em Sistemas da Informação e membro da ABRAVEI, Aurélio Barreto, toda revolução tecnológica passa por resistência. Ele lamenta a influência das fake news no debate público, mas afirma que a chegada dos veículos elétricos é um caminho sem volta.
“Toda tecnologia transformadora enfrenta resistência. Foi assim com a eletricidade e com as vacinas. Agora, com os veículos eletrificados, não é diferente. Rumores e mitos têm contaminado o debate público, desviando a atenção do que realmente importa: uma solução limpa e inevitável, que veio para beneficiar a todos”, diz Barreto.
Normas de segurança
No Brasil, a recarga veicular no país é regida por um conjunto de normas técnicas robustas: ABNT NBR 17019 (2022), que define requisitos para instalações de baixa tensão e alimentação de veículos elétricos; ABNT NBR 5410 (2004), que trata da segurança das instalações elétricas residenciais e comerciais, e a ABNT NBR IEC 61851-x (2021), que estabelece padrões internacionais para carregadores veiculares.
A ABRAVEI reforça que todas as estações devem seguir essas diretrizes – e que as medidas de segurança devem ser aplicadas a todas as garagens, e não apenas às vagas com carregadores. Afinal, apenas 15% dos incêndios têm relação com o processo de recarga – e ainda assim, em sua maioria, por falhas de instalação, não de tecnologia.
Mais do que uma mudança tecnológica, a mobilidade elétrica é uma revolução ambiental e industrial, pois reduz drasticamente a poluição atmosférica, poupando vidas e melhorando a saúde urbana; diminui a poluição sonora, devolvendo o silêncio às cidades, e reposiciona o Brasil como protagonista mundial na transição energética.
“Temos energia limpa, indústria instalada e matéria-prima abundante. A equação é simples: menos emissões, menos ruído, menos risco – e muito mais futuro. A evolução elétrica não é o incêndio que alguns pintam. Ela é a chama que ilumina o caminho de um novo Brasil: silencioso, sustentável e seguro”, comemora a ABRAVEI.
Sergipe
O avanço da mobilidade elétrica vem encontrando barreiras inesperadas em alguns estados do Brasil e, principalmente em Sergipe. Recentemente, mudanças nas normas do Corpo de Bombeiros de Sergipe (CBSE) e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Sergipe (CREA) têm dificultado a instalação – e até mesmo a manutenção de carregadores para veículos elétricos em condomínios, shoppings e supermercados.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em um shopping de Aracaju, que foi obrigado a retirar os carregadores das garagens fechadas, mesmo após a aprovação do projeto por engenheiros e especialistas da área.
A justificativa apresentada pelos órgãos é o risco de incêndio em ambientes fechados – risco que, segundo dados técnicos e estudos internacionais, não possui qualquer comprovação até o momento.
As novas exigências têm preocupado empresários e administradores de empreendimentos. Muitos afirmam que, diante dos custos e incertezas geradas por regras que mudam constantemente, estão repensando a reinstalação dos equipamentos.
“Infelizmente, estamos sendo obrigados a retirar equipamentos que foram instalados seguindo todas as normas de segurança, com projetos assinados por engenheiros especialistas. Mas os Bombeiros e o CREA mudam constantemente suas regras, e ficamos numa situação insustentável. Se realocamos os carregadores, logo pedem para removê-los de novo. Isso gera custos elevados e prejuízos contínuos – e quem sofre no fim é o consumidor, que perde o direito de carregar seu veículo. Até agora, só vejo isso acontecendo em Sergipe, um verdadeiro absurdo”, desabafa um empresário ao Hora News.
Especialistas da ABRAVEI alertam que medidas baseadas em suposições, e não em evidências, podem frear o desenvolvimento da infraestrutura elétrica no país, afastando investimentos e prejudicando o avanço da mobilidade limpa – justamente em um momento em que o Brasil tem condições de liderar esse setor na América Latina.
Diante de tanta burocracia e regras exageradas, surge uma pergunta que ressoa entre empresários, engenheiros e consumidores: a quem realmente interessam normas que travam o progresso e penalizam quem investe em tecnologia limpa e segura?
Cabe agora ao CREA e, principalmente, ao Corpo de Bombeiros de Sergipe esclarecerem.
Por Redação
Foto: Freepik






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