SINPOL denuncia ‘apartheid salarial’ dentro da Polícia Civil de Sergipe

Em entrevista à Jovem Pan Aracaju, nesta terça-feira (21), o presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Sergipe (Sinpol-SE), Jean Rezende, e o diretor de Políticas Associativas e Sindicais, Heráclito Menezes, trouxeram à tona uma denúncia contundente: as profundas desigualdades internas na estrutura da Polícia Civil sergipana.

Com uma metáfora provocativa, os sindicalistas compararam o cenário vivido pelos servidores à lógica do apartheid, regime de segregação racial que marcou a África do Sul no século XX. A comparação, ainda que simbólica, visa ilustrar a distância entre os direitos e benefícios de delegados e oficiais investigadores – dois grupos que, embora façam parte da mesma instituição, vivem realidades salariais e funcionais opostas.

“Enquanto uma pequena parcela concentra privilégios, a imensa maioria carrega o peso da estrutura policial nas costas”, resumiu Jean Rezende, ao comentar os números levantados pelo sindicato.

Segundo dados do Portal da Transparência de Sergipe, um delegado pode receber até 1.000% a mais do que um oficial investigador. Em termos práticos, isso significa que os delegados sergipanos estão entre os cinco melhores salários do país, enquanto os investigadores ocupam o 25º lugar no ranking nacional, com vencimentos considerados defasados e desproporcionais.

Rezende destacou ainda que há casos de delegados com apenas um dia no serviço público recebendo mais do que investigadores com mais de 30 anos de carreira.

“É uma distorção que humilha e desmotiva a base da Polícia Civil. A gente ama o que faz, mas o reconhecimento não chega”, lamentou o oficial investigador, em entrevista aos jornalistas Paulo Sousa e Fabiana Ferrari.

As discrepâncias não param no salário-base. Segundo o SINPOL, as horas extras pagas aos delegados chegam a R$ 6 mil, enquanto os oficiais recebem cerca de um terço desse valor, mesmo trabalhando até 80 horas adicionais por mês.

O abono de permanência, concedido a servidores que permanecem na ativa após o tempo de aposentadoria, também revela desigualdade: delegados recebem o dobro do valor pago aos investigadores. Já a chamada Gratificação de Retribuição por Acúmulo de Delegacia chega a ser 236,5% superior ao benefício equivalente recebido pelos demais policiais civis.

“Apartheid” dentro da segurança pública

O diretor de Políticas Associativas e Sindicais da entidade classista, Heráclito Menezes, fez questão de contextualizar o uso do termo “apartheid”.

“Não se trata de uma analogia gratuita. Assim como na África do Sul, existe uma separação institucionalizada, onde poucos têm acesso aos privilégios e muitos vivem sob as consequências da desigualdade. A diferença é que, aqui, a segregação é administrativa e financeira”, salientou.

De acordo com o sindicato, os oficiais investigadores representam cerca de 89,5% do efetivo da Polícia Civil de Sergipe, enquanto os delegados somam apenas 10,5%. Mesmo assim, a maior parte dos recursos, benefícios e reconhecimentos estaria concentrada na cúpula.

Para o SINPOL, a questão ultrapassa os muros da corporação e desmotiva os profissionais da segurança pública.

“O cidadão é parte interessada nessa luta. Quando um policial civil está desmotivado, mal remunerado e sobrecarregado, toda a estrutura de combate ao crime enfraquece. É o serviço público que perde eficiência”, destacou Jean.

O presidente do SINPOL reforçou que a valorização dos oficiais investigadores é essencial para a segurança e para a justiça em Sergipe – e pediu apoio da população para pôr fim ao que chama de “apartheid institucional” dentro da Polícia Civil.


Por Redação
Foto: PS/JP

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