O Brasil vive uma crise silenciosa nas ruas. Em apenas um ano, o número de pessoas sem moradia disparou 25%, atingindo 327.925 brasileiros no fim de 2024 — 14 vezes mais do que em 2013, segundo levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base no Cadastro Único, que o Hora News teve acesso.
E a curva segue em alta: até maio de 2025, já são 345.542 pessoas vivendo nas ruas, 62% concentradas no Sudeste. São Paulo lidera, com 98.639 pessoas sem teto.
Por trás dos números frios, um drama humano invisível. Além da pobreza, a falta de políticas públicas efetivas empurra milhares para a marginalização — e, muitas vezes, para a morte sem registro.
Mortes ocultas e prefeituras omissas
Um levantamento da Ponte Jornalismo revelou outro dado alarmante: das 27 capitais, apenas 6 possuem informações sobre mortes de pessoas em situação de rua. E mesmo esses registros são incompletos, com respostas negadas ou ignoradas pela maioria das prefeituras.
A pesquisa mostra que a falta de transparência revela não só descaso, mas um esforço para evitar que a incompetência estatal venha à tona.
O levantamento trouxe à tona um dado assustador: em Manaus, 903 pessoas em situação de rua foram enterradas sem identificação entre 2020 e 2024. Esse “ralo institucional” apaga histórias e identidades, condenando pessoas a um esquecimento duplo: primeiro social, depois físico.
Aracaju
A Prefeitura de Aracaju (SE), segundo o Observatório, negou os dados solicitados via Lei de Acesso à Informação sobre mortes de pessoas em situação de rua. Em resposta, o município alegou que “outros dados e informações devem ser solicitados por meio de ofício, direcionado à Secretaria Municipal da pasta, que emitirá a resposta formal adequada e disponibilizará os dados e informações cuja legislação permite a divulgação”.
Na prática, a justificativa transfere a responsabilidade para um trâmite burocrático que pode restringir a transparência prevista em lei, dificultando o acesso a informações de interesse público.
Violência e abandono
Mesmo entre as mortes registradas, há indícios de violência brutal. Em Fortaleza, 5 das 16 mortes de pessoas em situação de rua foram violentas. Em Florianópolis, 4 dos 57 óbitos ocorreram por atropelamento, suicídio ou envenenamento.
O cenário expõe uma população que não apenas carece de moradia, mas enfrenta riscos diários e saúde mental devastada. Além da omissão, algumas capitais negaram os pedidos de informação, alegando sigilo e LGPD — uma justificativa que especialistas consideram infundada, já que a lei não protege dados de pessoas falecidas.
O que fica evidente é um apagão de dados, que serve para mascarar a ausência de políticas públicas. Enquanto isso, milhares seguem invisíveis — vivos ou mortos — nas ruas do Brasil.
O que esperar? Sem estatísticas confiáveis, não há políticas eficazes. Sem políticas, a tendência é clara: mais brasileiros nas ruas, mais mortes sem nome, mais silêncio do poder público.
Por Redação
Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo






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