Traição nas urnas: o prefeito que prometeu tudo e entregou lama

Enquanto os discursos políticos ecoam com promessas de progresso, dignidade e atenção às comunidades rurais, a realidade nos povoados Planta, Flexeira, Boticário e tantos outros no município de Santo Amaro das Brotas, em Sergipe, segue marcada por abandono, lama e frustração. A cada chuva que cai, renova-se a dor e a sensação de desprezo por parte do poder público, que assiste inerte ao sofrimento de centenas de famílias.

Não é de hoje que essas comunidades enfrentam dificuldades estruturais graves. O problema das estradas vicinais, por exemplo, é um velho conhecido dos moradores. Com as chuvas frequentes nesta época do ano, as vias de acesso se tornam verdadeiros pântanos, repletos de buracos, poças, lamaçais e pontos de alagamento que isolam os moradores, impedem o trânsito de veículos e colocam em risco a segurança de todos. Crianças deixam de ir à escola, ambulâncias não conseguem chegar em casos de urgência, e pequenos produtores rurais veem sua produção estragando por não conseguir escoar o que plantam.

O mais grave é que toda essa situação já foi, por diversas vezes, levada ao conhecimento da gestão municipal. O prefeito Paulo César conhece cada uma dessas dificuldades. Não apenas porque sua função o obriga a estar atento às demandas da população, mas porque ele mesmo esteve presente nessas localidades em tempos de campanha eleitoral. Visitou moradores, apertou mãos, ouviu queixas e, sobretudo, prometeu soluções.

Promessas vazias e palavras ao vento

Durante o último período eleitoral, o prefeito fez questão de incluir os povoados Planta, Flexeira e Boticário em seu roteiro de visitas. Ali, prometeu obras emergenciais para melhorar a trafegabilidade das estradas, comprometeu-se com a recuperação de pontes precárias, prometeu ampliar a rede de escoamento de águas pluviais e até ventilou a possibilidade de asfaltamento futuro. Na época, as palavras pareceram firmes, carregadas de esperança para moradores cansados de tanto descaso.

Mas bastou passar o calor das urnas para que o prefeito sumisse. As promessas foram arquivadas. Nenhuma das ações prometidas foi executada, nem mesmo medidas paliativas foram colocadas em prática para aliviar o sofrimento diário da população. A gestão se mostra ausente, omissa e insensível diante do drama de quem vive o cotidiano rural com extrema dificuldade.

A população sente-se traída. Não apenas pelos compromissos descumpridos, mas pelo total silêncio da prefeitura frente às cobranças feitas ao longo dos anos. É como se os moradores desses povoados não existissem, como se seus votos tivessem sido descartados junto com os discursos de campanha. Uma postura que revela o desprezo da administração por aqueles que mais precisam do apoio do poder público.

Muito além das estradas: um conjunto de negligências

As estradas são apenas o exemplo mais visível — e talvez mais gritante — do abandono. A negligência da gestão municipal atinge outras áreas igualmente importantes. Há denúncias de que postos de saúde dos povoados funcionam de forma precária, com falta de medicamentos e profissionais. O transporte escolar, quando funciona, é deficiente e inseguro, expondo crianças a riscos constantes. A coleta de lixo é irregular, e o abastecimento de água, em muitos locais, é instável.

Além disso, programas sociais não chegam com a frequência ou estrutura necessária. Falta incentivo à agricultura familiar, faltam cursos de capacitação, faltam espaços de lazer e cultura. Em resumo, falta o básico, e sobra indiferença.

A voz da comunidade precisa ser ouvida

Diante desse cenário, o que se percebe é um abismo entre o discurso institucional e a realidade vivida nas comunidades. Enquanto a prefeitura divulga em redes sociais ações pontuais na sede do município, os moradores da zona rural seguem invisíveis. São cidadãos de segunda classe em sua própria terra.

A população das comunidades rurais de Santo Amaro não pedem luxo. Pedem dignidade. Reivindicam o mínimo necessário para viver com segurança, mobilidade e acesso a serviços básicos. Querem apenas que as promessas feitas em tempos de eleição sejam levadas a sério após a apuração dos votos.

É urgente que o Ministério Público, os vereadores da cidade e demais órgãos fiscalizadores cobrem da prefeitura ações concretas. A impunidade diante do abandono institucional não pode se naturalizar. É preciso romper com esse ciclo perverso de prometer durante a campanha e desaparecer durante o mandato.

As chuvas vão passar. A lama vai secar. Mas o sentimento de abandono permanecerá enquanto o poder público continuar ignorando o sofrimento de sua gente. O prefeito Paulo César ainda tem tempo de reparar — mesmo que parcialmente — o erro de ter virado as costas para essas comunidades. Mas, para isso, é preciso agir, ouvir, respeitar. A gestão de um município não pode ser pautada por interesses eleitorais, mas pela responsabilidade de servir a todos, e não apenas aos que vivem nos centros urbanos ou ao redor do palanque.

Enquanto isso, seguimos denunciando, dando voz aos esquecidos e exigindo o que deveria ser óbvio: respeito à dignidade do povo de Santo Amaro.


Paulo Sousa é jornalista, apresentador do Informe Cidade, na Rádio Cidade FM (radiocidadefm.net), e defensor dos direitos humanos.

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