Após PF e PGR negarem depoimento, Aragão acusa Veja de usar fake news na disputa eleitoral

O jurista Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça e ex-vice-procurador-geral eleitoral, criticou a revista Veja após a publicação de uma reportagem que atribui ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro declarações sobre um suposto repasse de R$ 30 milhões para financiar um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caso ganhou repercussão após a Polícia Federal (PF), a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a defesa do empresário contestarem a existência de um depoimento com o conteúdo divulgado.

Em nota oficial, a Polícia Federal afirmou que Vorcaro não prestou depoimento com as informações apresentadas pela revista, nem entregou à instituição documentos ou anexos que sustentassem o relato. A corporação também informou que as propostas de colaboração premiada apresentadas pela defesa não foram aceitas por não atenderem aos requisitos legais.

“A Polícia Federal esclarece, em relação à reportagem intitulada ‘Vorcaro conta que liberou dinheiro para filme sobre Lula por negócios no governo’, publicada pela revista Veja, nesta sexta-feira (9/10), que Daniel Vorcaro não prestou depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito”, diz a PF.

A defesa do ex-banqueiro também declarou não ter conhecimento de um novo depoimento sobre o suposto financiamento. O advogado Daniel Bialski afirmou à Agência Brasil que não teve acesso a documentos que comprovassem o repasse e que seu cliente não havia tratado do assunto com ele.

“Eu realmente desconheço tudo isso”, afirmou Bialski, segundo relato publicado pelo UOL. O advogado também disse que nunca havia ouvido Vorcaro falar sobre o tema.

A Procuradoria-Geral da República (PGR), por sua vez, negou que tenha recebido depoimento ou documentação com o teor atribuído a Vorcaro. A controvérsia envolve, portanto, não apenas o conteúdo das declarações divulgadas, mas também a origem e a natureza dos registros apresentados na reportagem.

“Não houve depoimento oral do Sr. Vorcaro, justamente por conta da rejeição da proposta, cujos motivos foram expostos à defesa. A Procuradoria-Geral da República respeita o sigilo que se impõe, por lei, ao procedimento de colaboração premiada havido”, esclarece a PGR.

Aragão compara episódio a disputa eleitoral de 2014

Em manifestação nas redes sociais, Eugênio Aragão classificou a publicação como uma tentativa de interferência no processo eleitoral e comparou o episódio a uma controvérsia envolvendo a própria Veja às vésperas do segundo turno presidencial de 2014.

Naquele ano, a revista publicou uma capa com os rostos de Lula e da então presidente Dilma Rousseff acompanhados da frase “Eles sabiam de tudo”, em referência às suspeitas de conhecimento sobre irregularidades na Petrobras. A coligação de Dilma e o PT recorreram à Justiça Eleitoral, e o ministro Admar Gonzaga, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), concedeu liminar determinando a publicação de direito de resposta no site da revista.

Aragão, que ocupava à época o cargo de vice-procurador-geral eleitoral, voltou a questionar a atuação da publicação e afirmou que o episódio atual reproduz práticas que, em sua avaliação, prejudicam o debate democrático.

 “Trata-se de um mentiroso sistemático cujo material não tem o menor interesse processual”, frisou o ex-ministro. 

Reportagem atribui a Vorcaro suposto pagamento de R$ 30 milhões

A Veja divulgou áudios e documentos que, segundo a revista, indicariam que Vorcaro teria destinado cerca de R$ 30 milhões, em dinheiro vivo, ao financiamento de um documentário sobre Lula. A publicação também atribuiu ao empresário relatos sobre pagamentos ao Instituto Lula e possíveis negociações relacionadas ao acesso a fundos de pensão.

A revista afirma que informações sobre o caso teriam sido reunidas em material relacionado às tentativas de colaboração premiada do ex-banqueiro. A PF, entretanto, negou que tenha recebido documentos ou depoimento com o conteúdo específico descrito na reportagem.

A equipe do cineasta Oliver Stone, responsável pelo documentário Lula, também negou que a produção tenha recebido recursos de Vorcaro ou do Banco Master. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, os representantes do diretor afirmaram que ele nunca conheceu o ex-banqueiro nem participou de negociações de patrocínio com ele.

Jurista critica condução do debate eleitoral

Além de questionar a reportagem, Aragão demonstrou preocupação com a resposta das instituições diante da circulação de informações de forte repercussão política durante a campanha.

O jurista criticou a condução das ações eleitorais e defendeu uma atuação capaz de conter conteúdos que, em sua avaliação, possam comprometer a disputa democrática. Ao resumir sua posição, Aragão declarou:

“Isso não são métodos de campanha. Isso é terrorismo de campanha, métodos sórdidos e sujos que uma democracia não pode tolerar”, observou.

O jurista também convocou apoiadores e integrantes da sociedade civil a contestarem a narrativa divulgada.

A Polícia Federal informou que recebeu uma notícia-crime relacionada à publicação e encaminhou o caso para análise técnica e adoção das providências cabíveis.


Por Redação
Foto: Marcelo Camargo

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