Se a transferência de votos seguir a última Quaest, Flávio Bolsonaro termina o 2º turno com cerca de 4,8 milhões de votos a mais que Lula. Peguei os votos reais de domingo, apliquei a pesquisa e fiz a conta.
O resultado assusta qualquer petista. Mas o detalhe mais importante não está na terceira via. Está no lugar onde Lula vai ter que buscar voto: no eleitor que não foi votar, que anulou ou que votou em branco. E esse é justamente o eleitor mais difícil de mexer.
Vamos aos números.
O ponto de partida
Flávio saiu do 1º turno com 2,2 milhões de votos de vantagem. Foi o 1º turno mais apertado desde 1989.
| Candidato | Votos | % dos válidos |
|---|---|---|
| Flávio Bolsonaro (PL) | 56.104.422 | 47,03% |
| Lula (PT) | 53.878.385 | 45,16% |
| Augusto Cury (Avante) | 3.448.569 | 2,89% |
| Renan Santos (Missão) | 2.675.887 | 2,24% |
| Ronaldo Caiado (PSD) | 2.605.148 | 2,18% |
| Romeu Zema (Novo) | 326.485 | 0,27% |
Parece pouco. Não é. Ainda tem cerca de 9 milhões de votos da terceira via em jogo, e eles não estão divididos por igual.
A simulação: para onde vai a terceira via
Com os percentuais da Quaest aplicados aos votos reais, Flávio ganha 4,16 milhões e Lula ganha 1,61 milhão. A diferença mais que dobra.
Usei a Quaest divulgada em 3/10, véspera da eleição, para Cury, Renan e Caiado. Para Zema, que não aparece nessa rodada, usei a Quaest de 24 a 27/9.
| Eleitores de | % Flávio | % Lula | Votos para Flávio | Votos para Lula | Não transferem |
|---|---|---|---|---|---|
| Cury | 34% | 23% | 1.172.513 | 793.171 | 1.482.885 |
| Renan Santos | 60% | 11% | 1.605.532 | 294.348 | 776.007 |
| Caiado | 43% | 19% | 1.120.214 | 494.978 | 989.956 |
| Zema | 81% | 9% | 264.453 | 29.384 | 32.648 |
| Total | 4.162.712 | 1.611.880 | 3.281.497 |
Não transferem = branco, nulo, abstenção ou indeciso.
O placar simulado fica assim:
- Flávio: 60.267.134 votos (52,06%)
- Lula: 55.490.265 votos (47,94%)
- Diferença: 4.776.869 votos
Deixei de fora os nanicos. Somados, eles têm cerca de 260 mil votos e não mudam a conta.
Onde Lula precisa buscar voto
O voto que falta para Lula está em quem não escolheu ninguém no 1º turno. São 39,4 milhões de pessoas.
| Grupo | Eleitores no 1º turno |
|---|---|
| Abstenção | 33.469.244 |
| Nulos | 3.674.249 |
| Brancos | 2.300.798 |
| Total | 39.444.291 |
Para empatar a simulação, Lula precisa tirar desse grupo 4,78 milhões de votos líquidos. Isso é cerca de 12% dele inteiro, e com Flávio não levando nenhum.
E o número real disponível é menor do que parece. Parte da abstenção é cadastro desatualizado: gente que mudou de cidade, que morreu ou que vive fora do país. No exterior, a abstenção passou de 60%.
O problema: a abstenção não costuma cair
Entre um turno e outro, a abstenção quase não se mexe. E quando se mexe, costuma subir.
Em 2014 e 2018 a abstenção subiu no 2º turno. Em 2022 ela caiu pela primeira vez, e a queda foi de 0,36 ponto. Isso dá cerca de 560 mil eleitores a mais nas urnas.
Lula precisa de 4,78 milhões. Seria preciso repetir a maior queda já registrada oito vezes e meia, com todo eleitor novo votando nele.
E a tendência vai no sentido contrário. A abstenção no 1º turno vem subindo eleição após eleição: 19,39% em 2014, 20,33% em 2018, 20,95% em 2022 e 21,08% agora. Em 2002, era 17,7%. No 2º turno ainda pesa um fator extra: muitos estados já elegeram governador, então há menos candidatos locais puxando eleitor para a urna.
A esperança do PT tem base real. A abstenção pesa mais entre eleitores de menor escolaridade, perfil mais próximo de Lula. E em 2022 a queda foi mais forte justamente nesse grupo. É ali que a campanha vai concentrar esforço. Mas até hoje, esse movimento rendeu centenas de milhares de votos. Não milhões.
O caminho mais curto: virar eleitor do Flávio
Se a abstenção não ajuda, sobra para Lula virar quem votou em Flávio. Bastariam cerca de 2,4 milhões de eleitores.
A lógica é simples. Cada voto virado vale dois: um a menos para Flávio, um a mais para Lula. Por isso a conta cai pela metade.
2,4 milhões é cerca de 4% da base do Flávio. Parece pouco. Mas estamos falando de um eleitorado polarizado, que já escolheu um lado com três semanas de campanha pela frente.
Curto não quer dizer fácil.
Mas calma: simulação não é profecia
Os números mostram o tamanho da montanha. Não mostram quem chega no topo.
Três cuidados com essa conta:
- Subamostras pequenas. O recorte por eleitor de cada candidato tem margem de erro bem maior que os 2 pontos da pesquisa geral.
- Pesquisa erra transferência. Em 2022, as pesquisas apontavam Lula como herdeiro dos votos de Tebet e Ciro. Na urna, de cerca de 10 milhões de votos da terceira via, 7 milhões foram para Bolsonaro e 3 milhões para Lula.
- A campanha ainda nem começou. São três semanas e três debates: Band em 11/10, Record em 18/10 e Globo em 23/10. Flávio e Lula não foram a nenhum debate no 1º turno.
O retrato de hoje é claro: Flávio tem a matemática a favor. Lula tem três semanas para mudar uma conta que, historicamente, quase não se mexe.
E você, acha que dá para virar?
Thiago Jacaúna é graduado em Publicidade e Propaganda e especialista em marketing digital.












